Dueto da tarde (CXLVII)



Dueto da tarde (CXLVII)

Flagro-me com os pés descalços na grama e os pensamentos dispersos, aéreos.
Uma viagem por mim mesmo levaria aonde? Não sei. Mas seria interessante.
Rasgo-me com a fé que andava distante e agora me acompanha como cachoeira de dia, feito aguardente na noite.
Descolo os olhos da retina retida, desamarro as mãos das amarras amadas, limpo os pés no rés do chão de nuvens e, em frente, enfrento.
Ao olhar a fronte do fronte de frente infrinjo suas leis e transformo-me em fera. O fronte me olha alheio, indigente – indiferente –, vira as costas e volta à guerra.
Cotidianamente, o dia-a-dia. Rotineiramente, a rotina. Ninguém para te dizer “agora!” O tempo todo todo mundo te dizendo “agora!”
Vejo-me inerte no espelho d’água do rio que corre... Não o desço; o que se vai são as cicatrizes da vida, páginas viradas, portas fechadas e algumas lágrimas.
“Chorar faz bem para os olhos”. Comer formiga também. Coceira na palma da mão é dinheiro. Pisar em cocô na rua dá sorte. O Jogo do Contente está sempre à disposição...
Não sei aonde a viagem por mim mesmo me levou, mas já estou pensando em retornar. A água já ferveu para o café e não o chá; o Zé já me chama para cavalgar, mas vou a pé.
A pé com os pés descalços. A areia quente quer assunto com meus dedos. Meus dedos fingem interessar-se pelo assunto da areia quente.
A grama marcada pelo peso do meu corpo me olha enciumada e clama meu retorno.
É para lá que eu vou. Mas tenho muita areia pela frente – e sob os pés – ainda.

Rogério Camargo e André Anlub
(8/5/15)

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