Dueto da tarde (CLXVII)



Dueto da tarde (CLXVII)

Perdeu-se da floresta e foi parar na escuridão selvagem da cidade grande.
Terá que reaprender a viver. São selvas diferentes.
Perdeu-se da floresta e foi parar na escuridão selvagem da cidade grande.
Terá que reaprender a viver. São selvas diferentes.
Fez residência ao pé de uma única grande árvore no meio de tantas paredes de pedra.
Quase morre de melancolia. Uma árvore não é centenas de árvores, não é um milhão de árvores.
Quase vive de agonia. Muro alto não é encosta; muro baixo não é cerca viva.
Viver da sobra do resto da sobra não é caçar e festejar a caçada. 
Carrega com prazer a ordem de seu vício em cheirar o mato, o orvalho, passar o dia no lago, pintar o céu e repintar as manhãs e fins de tarde... Mas não se vicia em desordem.
Passa um ônibus, um caminhão, uma ambulância, duas motos, um táxi. Não passa boi nem boiada. Nem o arrependimento.
Passa uma lua por alguns minutos nos reflexos em edifícios banais; passa o sonho de um vagalume que vaga em meio a tantas luzes artificiais.
Só não passa a ânsia de voltar para o que não está mais, de escarvar no caminho do ar poluído para encontrar a libertação.
Voltar ao seu lar era voltar ao lar de todos e estar em todas as partes. Menos ali. Queria somente o antigo espaço de volta.
Mas onde está o antigo espaço num espaço novo em que tudo é ruína? Pergunta e tosse, engasga com a resposta que não vem e manda fumaça em seu lugar.
Por trás da neblina artificial e densa há o luar. Amplia o olhar e intui não estar longe o que procura. Seu lar antigo era ali, tateando pode ver, vendo pode palpar. É palpável: saiu de estava para estar onde está.
E este é um novo lar que se encaixa perfeitamente em sua alma liberta.

Rogério Camargo e André Anlub
(1/6/15)

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