Dueto da tarde (CLXXIII)



Dueto da tarde (CLXXIII)

Pegadas na areia entregam o teu passar; o pôr do sol é só um adereço.
Tudo tem seu preço e o que mereço é pagar/apagar todo o anterior para ter o agora.
O amanhã jamais chora... O hoje talvez. Vou lá fora – vou-me agora – vou à forra com esse tal de “outra vez”.
Repito a repetição. Crepito como um tição. Medito com a lição. Mas sou meu único professor.
O mar me sussurra um tanto... Finjo não escutar; o céu me pede para esperar... Então bem alto eu canto.
Sou mais uma pegada na areia. Não para rimar com as tuas, mas para encontrar minha praia.
Talvez a solidão de um lugar deserto e breve: sol, sal, conchas, pedras, mariscos, peixes inquietos e o silêncio de uma brisa leve.
Caminhar para ver. Ter olhos nos pés para ver. Um dia chego. E se o apego permitir, um dia fico.
Observo sua pegada se apagar... Fico com um ligeiro receio, pois a vejo somente indo e se perdendo no horizonte, ao longe, levadas pelo nosso mar.
Não me afogarei na desilusão. Nem me bronzearei em uma certeza falsa. Acho que sei para onde foste. Acho que sei para onde vou.
Ligo o rádio na minha estação preferida, ponho a cadeira na areia, abro o guarda-sol e o bloquinho de poemas, noto e reflito sobre o nada e relaxo esperando a próxima alvorada.
Ela vai me trazer teus passos novamente? Novamente não sei. Mas novamente estarei aqui, pois aqui é onde posso estar.

Rogério Camargo e André Anlub
(8/6/15)

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