Dueto da tarde (CLXXV)



Dueto da tarde (CLXXV)

Cheia de fases e quieta, como a lua, a coruja viúva somente observa.
Seu longo histórico de observações leva a pensar. A coruja viúva adora ser levada a pensar.
Observa – pensa, pensa – observa... poderia (caso quisesse) ficar presa nisso e nessa até o sol raiar.
Mas até as corujas sentem fome. Encosta a filosofia num canto do galho e alça voo silenciosamente.
Voa rente e alerta, silenciosa e esperta, e caça o coelho que sai de seu abrigo, pois tinha hábito notívago.
Coelho perde a vida para que coruja continue vivendo. De volta a seu posto de reflexão, entrega-se a meditar.
Entre um som e outro, imersa na penumbra, tenta tirar o cochilo... Em vão! E vão em diversa direção seus olhos gigantes que não relaxam. Em suma: suma noite para que a coruja durma.
Vá embora agora isso que decora a mente com reflexos complexos. Quero descansar! Mas a imagem do coelho apavorado não lhe sai da cabeça.
Parodiando Suassuna: matar coelho dá um azar danado. Sobretudo para o coelho. 
A caçadora digere sua caça e os azares da vida, que são a sorte de quem os provocou. Digestão pesada.
A lua vai dando seu adeus para a noite grávida de oito meses que em breve, muito breve, dará a luz.
A coruja viúva boceja, arrota, ajeita-se no galho-casa, deixa o sono pesar nos olhos e, absolutamente sem querer, compõe um adeus-epitáfio ao coelho mártir.

Rogerio Camargo e André Anlub
(10/6/15)

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