Dueto da tarde (CLXXXVIII)



Dueto da tarde (CLXXXVIII)

Enquanto o destino do destino prepara as brincadeiras que não têm graça e afia as unhas em paredes de ferro, seguimos nas estradas do eterno com nossas botas de couro de búfalo e nossa rosa dos ventos de bússola.
Se é escolha ou se é imposição, o destino do destino não diz e seria demais esperar que dissesse.
O que tiver que ser será, ou não. Então, o que vai ser? O futuro é irmão do destino, mas dessa vez nem ele sabe responder.
Percebe onde as unhas são afiadas e afia lá também as espadas, as adagas e a língua.
Percebe onde a complicação fica compilada e conspira lá também as falas, as falácias confiáveis e as ambíguas.
Traça planos e os rasga de imediato; traça metas e as esquece na mesma hora; organiza tudo e vira as costas para o que organizou.
O destino se diz atino e em desatino torna-se atento: o que foi ontem foi – o que é hoje é –, e o que virá no amanhã ele não diz.
O destino do destino não quer nem saber de que lado vem a bala, não quer saber se a mula manca ou se o pato é macho.
Não quer ser o capacho e tampouco o sapato sujo de barro. No mundo as horas passam, e só o que é acertado é o próximo segundo.
Não quer ser capacho e limpa os pés em si mesmo. Não quer dever nada pra ninguém e vive com os bolsos furados.
O rumo vira clichê enquanto o rum matura na mente. O destino de porre – bêbado na sarjeta – não vê gorjeta, não vê nobreza nem tristeza, não sabe o que acontece ao olhar para a poça d’água e não ver destino. 

Rogério Camargo e André Anlub
(26/6/15)

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