Dama

Pesquisas buscam definir estilo e parentescos culturais da escritora Carolina Maria de Jesus
Posted by Pesquisa Fapesp on Quarta, 24 de junho de 2015


Dama (resolveu decorar o orbe de dentro e tornou-se bem mais feliz)

Dama de fé famélica que vive o amor como um Deus. As ações são suas vozes, seus céus, versos e véus. Meramente faz e jamais quis fazer parecer; cala e desmascara os atrozes que respondem com vis falações. Para falsos profetas macabros sorri com benevolência, pois sabe que são desumanos de mero vocábulo que voam sem asas/rumos e pousam fazendo injúria aos castos no frio e quente deserto das aparências. Agora tem visão menos turva/suja, deixa que pisem na uva; sabe que curará o desalento, pois é mais fácil deixar cair dos olhos a chuva. Cansou-se de elevar ao céu suas mãos e engasgar-se com o medo, ébrio e hipocondria; supre a dor com o comprimento de um comprimido comprido, levanta e não cai de joelhos ao chão. Dizem que deuses a amam e o resto do mundo não. Todos os elos da corrente foram tomados pela ferrugem. Águas molham, aos outros ungem; palavras incertas, ditos incoerentes. Com seus cabelos ao vento que acabam levando a vida, à partida fez-se momento – um lugar bom será sempre bem-vindo. Como sabe de seus erros; como finge indiferença; como nega os zelos; como sofre com suas crenças. Dedão nas orelhas, mãos espalmadas e língua à mostra: armado o circo pede socorro – com cegos olhos solta o pranto... Perdeu a fé e quer a forra. A estandardização já estava imposta: olhos, altura, cabelo, ouro e muito mais... Atrás da porta ela sorri aos mal/bem amados; pois não carece seguir quaisquer padrões. O seu viés é fulgente; destrincha possibilidades de dedos apontados a ela; indiretas não se criam, tampouco fulminações... É osso, osso duro, puro osso, salgado, forte, osso dos bons. Na infância não se sabe qual foi sua história, mas jamais sujaram sua imagem com obscenidades eloquentes. Gente simples, fiel e aberta, que sempre foi/é o que quis. Bebe água, café e cachaça no copo velho de geleia. A masmorra foi anunciada para todos como paraíso, coberta de rosas pulcras, ostentações e múltiplos coloridos artifícios: como heras, vinham amores por fora, trepando; como feras, vinham rancores oclusos, clamando; como vinho, errantes inebriantes que, como antes, foram feridas no agora... Travestida de verdade estava em êxtase incondicional, tinha no seu exército fiel guarida, mas a inglória da própria imagem em paradoxo, em avejão. Hoje vem novamente da escola da história; aquela sofrida – ou nem tanto. Passa e vê a rasteira do capoeirista que entorta a pista ou somente seus olhos; lê enquetes no céu sobre cores do tempo, sobre sofrimentos e fortunas, casos eternos em uma bolha chamada: “talvez”... É algo mais ou nem tanto. Sente o cheiro de grama encharcada, mato irrigado, estrume fresco. Pois bem, está em casa, enfim. Acendeu a lareira, o incenso, a ideia; viu o moleque descendo a ladeira nesse frio congelante e inventivo sem casaco, calça quente, gorro, dente, família. Deu um nó na garganta, não conseguiu cantar; resolveu fazer a oração, calada; antigamente era mais fácil ser enfática, fantástica, fanática, fantasiosa e sonhadora. No momento o tempo abre, o sol brota tímido e nuvens quase se transluzem – dando para ver a felicidade. Os Anjos trazem alguns rabiscos: folhas sem nada, mas com tudo ali. Foi o mundo ao avesso no desapresso de pressas. O pensamento ligeiro deixa rastros de onde nunca passou, enquanto o mar, seu amigo, lhe aguarda à próxima visita. Sonhos vão aquém/além do tempo presente; pode ver tão claramente um fato nunca consumado, água nunca bebida e a sede que sempre houve. Vê agora versos com enormes asas, que anseiam serem pegos/usados/lidos. Há pedras no chão que formam dores antigas e/ou novas e, como não pode deixar de ser, também faz parte do cenário. A peça de teatro irá ao ar. Abre e fecha de cortinas, rotineiras rotinas e acasos em novidades... A Dama tudo vê, e vê que tudo é para alegrar a alma. Expôs o que é para ser exposto, e com gosto. Pôs-se o que era pus e cicatrizou em casca mais forte e duradoura. Escreveu só para fazer graça/graxa; engraxar o texto e sua testa. As corredeiras a chamam, as águas a chamam, o sol está no ponto e o céu bate ponto: mais azul do que nunca. O tempo lento e o som ínfimo, lamentos enterrados e lamúrias aos ventos; a distância entre o entrosamento e o ensejo é breve momento. Cortinas de todas as cores se fecham... Hoje a Dama sou eu, amanhã talvez... Hoje houve sonho, como sempre haverá.

André Anlub

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