Dueto da tarde (CCIII)



Dueto da tarde (CCIII)

Sob a lua e ao som de violinos, queima no centro da quermesse minha paixão de menino.
Era muitos, era um milhão, e em todos eles queimava o mesmo turbilhão.
Largo a rédea, enfio o pé na jaca, tiro a viola do saco e equilibro na língua uma faca.
As lembranças avassalam. E olham comprido para tantos amantes que acasalam.
Sem vassalos ou insubordinados, nada de obrigações pela frente. O rente passa além e as orações são incoerentes.
Há pouca diversão nesta quermesse que divirta como a paixão acha que merece.
Surge então o tal de Antônio, de sobrenome Vivaldi, trouxe em um largo balde anéis para quem quer matrimonio.
Bigode de rolha, parece um bolha, paletó remendado, sapato cambaio. Mirando de lado, não sei se fico ou saio.
Sob a lua envergonhada o seu corpo pega a estrada e deixa um triste adeus. Tudo que se faça, mesmo nada parca e porcamente, atrairá novamente seus olhos aos meus.
Paixão é maldição. É praga rogada. É castigo e perigo de gostar do castigo. Assim comigo e contigo.
E é sabido que o sábio também ama, e corre perigo, e fere e sai ferido, mergulha no céu e se banha na lama.
Se é sabedoria, jamais saberei: só sei que a quermesse me aquece por dois segundos e depois me esquece em outros mundos, em que sonho tristonho com o que não reponho.
A paixão de menino monta em um equino; pega a rédea – come a jaca – toca a viola e me convida a não dar mais muita bola para a moça e as rimas.
Mas ele é só um menino. Não sabe que na sua esteira o homem, tão maduro e sábio, vai fazer a mesma besteira.

Rogério Camargo e André Anlub
(15/7/15)

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