Dueto da tarde (CCV)



Dueto da tarde (CCV)

As vidas nunca se cruzaram, mas tinham mais a ver que muitas que deveriam ter a ver.
Irmãos siameses que nunca se viram, se tocaram, se imaginaram.
Quase uma simbiose e uma osmose às avessas; tal diferença que não faz diferença, faz da ausência a afeição.
Não há vir de lá ou ir de cá. Sempre e sempre existe apenas o encontro do que sempre esteve.
Mesmo com pensamentos distintos as ideias estavam integradas, pois não pode ser negado nem um momento que há duplo consentimento.
O que viu continua vendo, o que cegou continua cego. E não há nada que impeça tudo que impede.
Um corpo voa alto tocando o sol e a lua; outro corpo em mergulho profundo onde a luz há muito não abunda.
As questões menores juntam-se às questões maiores em questionário inútil: o que é verdade nunca deixa de ser.
A realidade se junta com as vontades e conquistas e cada qual achando suas pistas: encontram-se.
As vidas se cruzaram como tudo se cruza: carregando sua cruz. E não havia sangue nelas.
Quem é de mergulho agora voa, e quem é de voo, mergulha... e as mãos e os olhares se cruzam. Os de fora palpitam, mas a vida agora e sempre é enigma.
Pouco adianta escarvar na pedra. Os séculos consumirão os dedos e nada virá dali. A cruz do cruzamento é justamente esta.

Rogério Camargo e André Anlub
(23/7/15)

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