Dueto da tarde (CXCIII)

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Posted by Revista Galileu on Quinta, 2 de julho de 2015


Dueto da tarde (CXCIII)

Faz tempo que disse que ia e realmente foi. Agora diz que vem e todos estão esperando.
Tudo é uma questão de sentido: de para onde se vai e do que se está dizendo.
O blá, blá, blá faz um momento nada formal: cadeiras de bar pela área, barracas armadas, redes presas em árvores, colchonetes espalhados e até hippies atemporais.
Foi buscar lã e trouxe a ovelha. Que se virassem os que acreditaram em suas promessas.
Foi buscar pão e trouxe o padeiro. A fome já está presente. Que alguém traga o fermento, o leite e o centeio.
Responsabilizar o responsável. Ir direto à fonte. Na verdade, procurar ombros largos onde largar o que é seu.
E não é que agora ele desponta no alto da montanha, descendo a estrada com um carrinho de mão cheio de livros e tralhas.
Espera festas na linha de chegada, arco de triunfo, medalhas, diplomas e a bandinha do colégio tocando “Mamãe eu Quero”.
Que desespero! Desde o tempo do bezerro – aquele de ouro –, nunca se viu tanta ansiedade por algo para aprender e não praticar.
Com uma aura de messias fajuto, profeta de botequim, iluminado que não pagou a conta da luz, subiu num caixote de cerveja e discursou para ninguém.
Com pouca voz e muito gesto, como um mito atroz que pouco presta, nada mais lhe resta a não ser queimar as enciclopédias.
Coisa que não faz, evidente. Evidente? Para alguns videntes. “Vi o dente: vai morder!” Mas é um aviso que cai no vácuo. 
Que desespero! Novamente. Desde os tempos onça, do ronca, de vovó mocinha bebendo leite condensado na latinha, nunca se viu tanta gente queimando cuecas e calcinhas em prol de um recomeço.
E o único sonho realizado é o do mascate que vai vender a reposição do material queimado.

Rogério Camargo e André Anlub
(2/7/15)

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