Dueto da tarde (CXCVI)



Dueto da tarde (CXCVI)

Era preciso encontrar um ponto de equilíbrio entre ir e não ir, entre ficar e não ficar.
Aquele ponto cego – nem retrocesso nem avanço – que reside na língua, entre a mente e o ouvido.
Uma viagem no trem cargueiro das responsabilidades esvaziadas, postas para escanteio por um zagueiro tosco.
A sensatez faz a mala entupindo de pedras, enquanto a loucura carrega os dois nos ombros; o meio termo é quase inexistente.
Drama cotidiano. A cota do ano é diária. Era preciso encontrar o nem lá nem cá, mas que não fosse um muro onde sentar a covardia.
Optou pelo ponto e vírgula; optou pela porta: entrada/saída; optou pela intersecção – traço – travessão... E nada feito!
A saída não é negar a saída pela ânsia de sair. Ou de entrar. Ou de arrancar a pele porque está fazendo muito calor.
Mais do que nunca o equilíbrio se faz necessário; como o infeliz que não vai adiante – não sai do armário – com medo de ser taxado por sua sexualidade ou por ser o amante.
E assim estava-se porque assim se está quase sempre todo o sempre. Algum deus deveria ser o culpado. Mas não aparecia para ser algemado.
Seria até mais sensato deixar o anual e o diário, achar o intermediário entre deus e o diabo; um mortal qualquer, tipo o Zé que é plantador de quiabo.
Levantou-se cambaleando e foi do nada para lugar nenhum, bêbado de sua filosofia inconsequente.
Já não importa a decisão tomada, não havia mais equilíbrio; não havia mais diálogo nem mesmo com a gravidade. O que resta fora do reto? Talvez tentar sincronizar a tontura.
Faz o que pode com o que tem. Dá adeus com uma chegada, aproxima-se com uma despedida e espera desesperando. A vida não lhe cobra nada; mesmo que viva uma cobrança.
Um dia foi preciso encontrar o ponto de equilíbrio. Mas ele não espera mais em pontos; resolve pegar o bonde em movimento.
Põe a mão trêmula no fiel da balança. Reconhece que é um infiel que balança. Mas é o que tem para o momento.

Rogério Camargo e André Anlub
(5/7/15)

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