manhã de 5 de agosto de 2015



Aquele tal abismo: não sei se me encara, pois há um venda em nossos olhos.
(manhã de 5 de agosto de 2015)

                      Foge daqui, dali, e vai fugir do próximo planeta que descobrirem. A opção não é pular do penhasco, tampouco tentar voar sobre ele (em pessoa física); talvez um salto de base jumping; a opção “fugir” está ligada, o botão colado com supercola e funcionando em duzentos e vinte volts. E agora, será que há um meio de não fugir da questão? mesmo em casa, deitado na cama, bebendo suco de limão e assistindo um show de reggae, a questão me persegue. Ela vasculha minhas gavetas e deixa recado; ela abre meus armários e deixa recado; vai nos meus potes de tinta, no rolo do papel higiênico, vai na caixinha de remédios, se infiltra nas minhas imagens dos santos, nos meus perfumes e rascunhos de rabiscos. Está em tudo e todos. Fico assustado de pensar na vida que segue; não que esteja ruim, tampouco eu esteja infeliz, é que crio universos paralelos, mundos possíveis e passiveis de outros finais. Tudo dependendo de uma ou outra escolha importante que (não) tomei no passado. Meu corpo em metáfora emoldurou-se com um toque de filantropia; minha alma em pura denotação pintou suas bordas com um toque de nostalgia; assim foi-se o dia, e todo dia assim é assim é que vai. Num linguajar sacolejado por música, que me acompanha onde quer que eu vá, vivo e vive-se o momento como singular, como uma chuva rara que cai acalmando o calor, matando a sede e convidando-me ao mais verde vivente. Foge daqui, mas não foge de mim. Deixe seu cheiro seu rastro sua história e sua garantia de volta (caso queira); não seja breve nem longo, seja apenas o conforto para nós dois. Pense em mim, sim; mas não faça disso uma obrigação. A dosagem certa para cada sensação é chegar à beira do abismo do absurdo, mas não pular; brinque com ele, zombe dele, tomem um chá... Mas nem mais um passo à frente, pois extrapolar sentimentos é quase um se matar.

André Anlub

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