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Mostrando postagens de Fevereiro 18, 2015

Pequena história real.

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"O pai pediu-me que assinasse o livrinho antes da sessão de lançamento porque o menino, o Manuel, tinha que se deitar cedo. Ajoelhei-me junto ao Manuel e coloquei-lhe então uma questão:
- Este livro é sobre o medo do escuro. Será que tu tens medo?
Pela primeira vez ele me olhou nos olhos. Demorou a reagir e respondeu com uma pergunta:
- E tu tens medo do escuro?
Disse-lhe que sim. Ele gostou da sinceridade, deu meia volta e quando já se afastava conduzido pela mão do pai, ele parou e disse-me à distância:
- Não tenhas medo. O escuro apenas é feito das coisas que nele colocamos.
Disse aquilo para me reconfortar. Mas ele apenas recitava uma frase que eu tinha escrito no livro. O facto de um menino ter citado uma frase minha como se fosse algo da sua autoria foi talvez o maior dos prémios literários que tive. Nunca mais esquecerei esse momento"  - Mia Couto

O íntimo

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BANKSY (B. 1974) - Barcode Leopard (spray paint and emulsion on canvas), 2002

O íntimo

Via no tédio o remédio das disparidades de um vil covil,
Colocando fogo no palheiro para assim ver surgir uma agulha.
Com punho e a alcunha de justiceiro: foi-se o cunho e foi-se o pulha...
Talvez no terreiro, um terceiro quarto ou um sexto do quarto copo.

O íntimo quer mostrar a cara: fica para a próxima.

Atiro-me ao escopo: atiram-me, apunhalam-me, sequestram-me;
Eis os que orquestram como feras rugindo, como tréguas surgindo,
Como falta de filtro nas palavras que lavram num (in) coeso destino...
Ferem amigos, ferem coelhos brancos na noite – alvos fáceis;
Desumanos, desalmados.

Os motores de arranque estão quentes; há febre adolescente na mente.
Pudores caem, chuvas de verão; jamais nos verão tão impetuosamente.
Gruda chiclete no dente, queima a carne no espeto, o medo adota a senhora.

O íntimo que foi ínfimo é posto à prova: uma ova que para tudo tem hora.

Atiro-me à festa nesse exato momento: falta a far…
ALGUNS MINICONTOS

A carta que Perôndio escreveu avisando Parquínia do que poderia acontecer chegou dois anos atrasada. Parquínia foi obrigada a reconhecer duas coisas, porém. Uma, surpreendente: ele acertou quase tudo. Outra, deprimente: ela não teria seguido nenhum dos conselhos mesmo que a carta chegasse em tempo. Isso a deixou pensativa, pelo menos.

Ninguém chamava Júlio João de bonito. Júlio João era bonito. Mas não se lembrava de terem-no chamado assim uma vez que fosse. Um dia perguntou a sua amiga Irausa o que ela achava disso. Irausa primeiro pensou que ele estivesse brincando. Não estava. Depois pensou que talvez fosse uma armadilha. Não era. Era mesmo uma angústia. Que aumentou quando Irausa foi embora sem ter dito nada.

Há tanta coisa nas muitas coisas que as inexistências ficam muito receosas de começarem a existir.
- Mãe, tem uma estrela que quer falar comigo. - É mesmo, meu bem? Sobre o que? - Ela não disse ainda. Mas acho que está nervosa, coitadinha, a luz dela não para d…

Dueto da tarde (LXIX)

Publicação by Catraca Livre.

Dueto da tarde (LXIX)

Acordei hoje com dor de cabeça. Não sei onde minha cabeça andou durante o sono;
Talvez tenha voado, voltado novamente no tempo, passeado pela Gaia de mãos dadas com Alice.
Não acordei por saudades do lar. Acordei porque a cabeça não deixou mais dormir.
Quase caí da cama, seria fatal já que durmo no alto de uma Sequoia gigante; e para ser deselegante vou confessar e completar que nunca arrumo minha cama.
Nem desamasso os lençóis. Nem apago a lâmpada de cabeceira. O travesseiro é o mesmo há anos. Minha Sequoia me entende.
Houve um tempo que morei no Mauna Loa, mas me espantei com o calor, senti falta de uma garoa; já vivi no Everest, mas o frio nada breve petrificava meu voo... agora estou muito bem onde estou.
Com a cabeça estourando, mas estou muito bem. Com o sono atrasado, mas estou muito bem. Com a Sequoia balançando e o Everest derretendo, mas estou muito bem.
Só que outro dia surgiu o homem e sua serra, senti um frio na nuca e me deixou e…