Ponderações III

Os motores aos ouvidos em dores;
os odores do carbono a calhar;
o cruzar de mil pernas;
as janelas com visão limitada;
e a empreitada de ser e estar.
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Talvez não seja minha flor que aflora
mas nem por isso não é fina flor.
Sei por que nunca mais o amor apavora
e por hora só tem transbordado em calor.
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Enfim, nua, nos meus braços, delirante;
dou-te o mel e o mais belo diamante;
dou-te a vida, dignidade,
dou-te tudo;
submerso - submisso - submundo.
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A alma quer plateia, zelonada de estar sozinha.
Ela quer que outros olhos curtam seu curto vestido decotado
o sorriso do rosto com duas covinhas
e todos, mas todos, os seus pelos eriçados.
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A finura precária faz o homem sensato criticar a todos
A mediana faz o homem sensato criticar a si próprio
A abundante faz o homem insensato a permanecer calado.
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A moradia na emoção é o botão de liga/desliga de uma alma incendiária.
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A realidade concorre com minhas vertentes,
e elas céleres e insanas sempre chegam na frente.
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Ajude-me a nadar em sua correnteza,
pois fico confortável e feliz; 
tal bela força resistente me diz:
atravesse novamente o oceano e me beija.
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A tempestade não me assusta,
E nem deveria!
Já tive dias terríveis de sol.
Se algo me causa temor,
É perder a inspiração e alegria,
Quando o sol toca e aquece meu rosto,
Ou a água cai do céu no meu corpo.
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A Via Láctea tem cem bilhões de planetas
e eu estou aqui,
muito feliz, radiante, satisfeito
por ter feito contato com você.
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A vida pode ser farpa entre unha e carne, 
um bambu que não quebra com o vento que varre, 
ou estrelas que brigam com o raiar de um dia.
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A vida só é cruel para os inermes
que fazem tempestades em copos d’água
vivendo nas podridões como vermes
fazendo respiração boca a boca em suas mágoas.
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Abril em festa?
- Pela fresta infesta o olhar da inveja.
Com a porta semiaberta ela observa:
não há mais “breja”,
não há igreja,
queimou-se a floresta...
Abril banal.
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Acabaram-se as abobrinhas em minha mente,
Nem se falarem hipoteticamente,
Só verei as bocas mexendo... sem som.
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Acontece uma descontrolada mandinga,
Que o mundo se apega.
É doideira querer que o bicho pegue,
E ele pega...
Agora se espera não mais,
Nunca mais,
Sentir o corpo rua abaixo descer.
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Acordei acessível... Com novos aforismos - ansiando ouvir tua voz.
Acordei querendo... Ser o ser mais admirável - amar com tenacidade e experimentar tua sensualidade.
Acordei famélico... Querendo me entregar - querendo te possuir.
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Acordei com uma lágrima,
No sonho bem claro o rosto:
De pronto sorriso me olhava.
Amigo de praias e farras,
Que o vento levou sem aviso,
Deixando a doce lembrança,
Momentos que não amarelam,
E regam o verde singelo
Desse jardim da saudade.
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Acordei venerando a música,
peguei a gaita e o jeito,
não fazemos amor há tempos.
Saiu um blues dos pesados,
melodia traçada nessa harmonia.
Rito e reta, meta e mote - fito o mito.
Sem moda, sem fúcsia, filha única.
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Adversidades acontecem
Muita luta e pouco caso
Sensações se perdem
O rabo abana o cachorro
O choro do velho solitário
Mas há de se ter esperança
No coloquial, na criança
Nas palavras que amadurecem.
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Agora há o costume de seguir o próprio caminho,
Escolher as pontes e portas,
Ficar frente a frente com o vendaval,
Sem o aval alheio, sem olheiro,
Sem frase feita e sorriso banal.
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Ah, esses namorados...
são apaixonados interessantes
seus corações, seus romances
amor compromissado.
Fazem loucuras sem limites
paixões ardentes sem juízo
só aceitam improviso
não aceitam palpites.
Ah, esses amantes...
é sem vergonha essa entrega
dizem que dá náuseas – dizem que dá raiva
e quase sempre causa inveja.
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Ainda bem que ninguém taxou de domínio
Pois com o meu cheiro, marquei o terreno
Mostrei os caninos ao meu cruel inimigo
Dediquei-me na íntegra a ser feliz ao extremo.
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Alfarrábios – folhosos – calhamaços – opúsculos
os nomes podem até parecer indigestos
mas degusta-los nos sacia de conhecimento.
Excelente digestão.
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Muitos poetas crescem para dentro
numa implosão da alma,
como nitroglicerina cálida
do pranto em autocombustão.
E, por sua vez, na aura o brilho,
eclode num parto,
expõe-se o filho,
o fio e o farto,
num alto salto
muito além da concepção.

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