Dueto CXLIV


Dueto CXLIV

O tempo valioso perdido aos ventos – no ar –, perdido na chuva que cai e banha e refresca.
A valia do tempo encontra-se com a valia da eternidade, que já se esfumou em nuvens que não mais.
Foram os tempos de leva e trás – sabor de júbilo na vei-a. Nos tempos de hoje o tempo vale ouro, mas o que é jogado fora se torna areia.
Areia espera água, água espera cimento. Nada é para sempre, mas tenta. Isso atenta.
O tempo que não volta atrás – frase difícil –, mas o pre-ocupante é o tempo que não segue em frente.
Pré-ocupação. Vem antes do que de fato existe. E o que de fato existe é tão passante como o que não se consegue pren-der com as mãos.
Como a água que passa entre os dedos – cai ao chão –, passa entre empecilhos e como um trem em tortos trilhos viaja e se mistura com a gravidade do tempo, terra do tempo, mar do tempo e areia.
No coração do coração há uma incerteza. E é exatamen-te o que dá certeza de viver. No coração do coração há uma insegurança. E é exatamente o que dá chão para viver.
Se o tempo for errado e absurdo, em breve passa num estampido mudo. Se há o tempo certo para tudo – ele fica e deixa fruto, aprendizado e acerto de quem um dia pode ter sido errado.
O que é “errado”, pergunta o tempo. E já passou. Se o errado não passa com ele, alguém está... errado.
O que é o “acerto”, pergunta o errado. E já acertou. Se há a curiosidade do esclarecimento.
Tudo isso o vento varre. Tudo isso é eterno já passando. O que fica é o que vai junto. O substancial é o que se desman-cha e vai junto.
Os ponteiros não param e a bola não cansa de girar – são duas certezas menos precisas que o próprio tempo que as move. “O tempo é o senhor da razão” – agora sim, os ponteiros e o mundo apostam suas fichas.
Apostam e perdem. Porque a razão pretende ser senhora do tempo quando diz que o tempo é o senhor da razão...

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