Na viagem!



Das incongruências (2012)

Se estiver frio reclama do frio
No calor se sente no inferno
Quando vai à praia sonha com banho de rio
Tudo está contra sua interação.

De um jeito terno, busca consolo e paixão
Vendo os sonhos como eternos objetivos 
Em cores explodindo em sensações multicoloridas
Reclama ser na vida o moribundo mais vivo.

É um ser brioso com demasiada descompostura
E na altura dos fatos nem precisa ser rigoroso
Todos já conhecem seu jeito nativo
É um poeta afetuoso, mas de extrema agrura.

Adora escrever torto com suas linhas certas
Um personagem morto de um Shakespeare atual
Mescla a inspiração como uma vira-lata pura
Fecha-se em ostracismo com as portas abertas.

Das inspirações (2012)

Veio assim de repente como essa brisa gostosa que corta o vale
A lembrança recente que se faz nascente no amor que ainda insiste em você.

Eu, sentada aqui nesse tronco velho de eucalipto...
Os pássaros dando rasantes, bebendo água no lago
Vendo, lá do outro lado, o vento batendo e fazendo no dossel das árvores um balé formoso.

Sinto uma enorme saudade que me aperta o peito feito um torno sem controle
Tento escrever algumas linhas no meu bloco, só saem rabiscos e o seu nome.
Meus pés descalços tocam nas folhas secas, marrons.
O som que elas emitem me remete à uma época em que eu ainda me arriscava com a velha máquina de escrever.

Tempos remotos e maravilhosos
O velho cesto de lixo, lotado de folhas amassadas
Pensamentos que saiam já amarrotados da minha cabeça
As imagens que só vinham à noite, como fadas ou almas aladas.

Inspiração é assim... Um mistério em frente e verso
Quando a verve lhe toca é como um empurrão...
Um mergulho no buraco nada negro do universo
O colorir da emoção.

Das lamúrias (2012)

Existe “aquele um” que só resmunga
Não movimenta, não vai à luta...
Latente insignificância de um filhote de pulga
Mas sabe muito bem o que deseja.

Coloca a culpa no país, nos pais, no governo, no moderno, na igreja
É uma peleja que sustenta com esmero e prazer
E o que fazer se a esta só quer que a vejam?
Pois ação é perigosa... pode resolver.

Tem também o cabisbaixo e pessimista
Que sai na “pista” procurando um parecer
Minimalista, oportunista e acessível
Mas o horrível é não ter nada a resolver.

Reclama do aumento da gasolina...
Do preço do material escolar
Queria um menino e nasceu menina
Tem piscina, mas nunca aprendeu a nadar.

Reclama que o salário é deveras pouco
E o sufoco de viver só para ter tédio
Diz que um dia acaba ficando louco

E não sobra um troco pra se dopar nem com remédio.

Dos anátemas (2012)

Rouba alento de quem é mais anêmico
E pouco antes do mesmo fenecer 
Pisa, cospe e sorri.

Achincalha a falta ou a existência da fé alheia
E quem cai na sua teia, destino - sucumbir.

A condição “sine qua non” para sua existência é macabra
Chifre de cabra, língua de serpente e asa de morcego
Seu amor é cego... arrancou-lhe os olhos.

Nesse holocausto é só mais um fausto
Fato verídico que poucos notam
Na ponta da faca escorre uma gota
Podendo ser sangue ou suor ou pranto.


André Anlub®

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