Ótima tarde

Dueto XXIX
(Rogério Camargo e André Anlub)

A coruja entortou o pescoço, olhou todos os lados, arre-galou ainda mais os olhos e sorriu.
Havia visto ou sido vista, havia compreendido ou a compreenderam e ela gostou disto.
Para todos um dia qualquer, para ela não; carregava a sabedoria de saber que cada momento é ímpar.
Sem fazer par-ou-ímpar com a sorte, abriu suas asas de coruja e partiu em busca de seu destino
Avistou um menino, deduziu ser amigo (pelo sorriso); faz tempo que não sente medo, tampouco fome ou frio,
Um menino com uma pedra pesada e cortante em cada mão, um menino que sente medo, fome e frio.
Pousou em um galho alto, mas perto do iminente peri-go; de repente veio um apetite e de brusco um arrepio.
O menino pondera a possibilidade. Tem idade pra saber do certo e do errado, pra saber do conveniente e do não.
Talvez não tenha idade pra saber do belo e do delicado e do sutil e do diáfano que se escondem atrás das aparências,
Mas há um vil desígnio no ar e há tensão e atenção; du-as vidas em desafio nos ritmos estonteantes em união.
Dois momentos possíveis. As mãos se crispam, aper-tando as pedras. Os olhos se estreitam, apertando a angústia. O coração acelera, apertado pela indecisão. É a vida.

Dueto XXX
(Rogério Camargo e André Anlub)

Havia uma resposta que nunca era dada para uma per-gunta que nunca era feita.
Aquela sensação do ar rarefeito, do vácuo, do nada... espelho frente ao espelho.
As palavras anestesiadas contorciam-se como um se-questrado no porta-malas de um automóvel.
A loucura do ignóbil sobressaia a qualquer grito, qual-quer esquisito fica cabreiro de meter o bedelho
Onde não é chamado, mesmo quando é chamado pela voz interna que inferna-inferniza, quase agoniza por espaço e liberdade.
É “Frontal com Fanta”, talvez uma elefanta voando com asas enormes e o rosto esnobe seja mais possível que qualquer verdade.
Embaixo do tapete mora o tropeço. Embaixo da pedra os vermes prosperam. Embaixo do embaixo a pá não alcança.
Em cima da cabeça um chapéu de cadeira elétrica; lá no topo, no céu, o grito de alerta avisando que falta luz e sobra esperança.
A palavra pode olhar para cima, pode. O dono da pala-vra pode olhar para cima, pode. Mas o mas do mas e o porém do porém são as respostas já.
Já que a “procura” é a loucura necessária que alavanca o corpo, tira da cama, da camisa de força, força viver e viver é a tempestade e a bonança.

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