Dueto LXXVII



O livro de duetos 'A Luz e o Diamante', André Anlub e Rogério Camargo, lançado em março de 2015, e o recém saído do forno: Sarau do Beco & Convidados e minha logo marca - Poeta Hei de Ser (Poeteideser) - registrada ® em 2010

Dueto LXXVII

O escuro abriu a porta para a escuridão e ela dava para o que ele não queria ver,
Sentia-se acuado, queria seu corpo diáfano, queria o si-lêncio do espaço e somente do som o ínfimo traço – a voz de seu pai.
Vinha de longe, um eco distante da sensação de acon-chego e proteção.
Onde estará a mão forte de pedreiro e a alma de guerrei-ro tentando construir e ajeitar o planeta num brado lúgubre de oposição?
O escuro não sabia responder. Mas abrira uma porta pa-ra a escuridão e, tropeçando, foi entrando no que não queria ver.
Sentiu-se no útero, em casa, no conforto; não havia con-torno, aborto, suborno nem desgosto; sentiu-se bem-vindo, ob-servado, nutrido e cuidado.
O medo que tinha era o medo de ter medo, então. O medo que tinha da porta fechada era o de abrir a porta.
Agora pode ouvir a voz pueril de seu pai, que foi crian-ça um dia; agora pode sentir o carinho de sua mãe que cedeu espaço no seu corpo para sua estadia.
Lentamente escuridão vai sendo iluminada pelo senti-mento de presença. Lentamente o medo dela percebe que não estar é que apavora.
Pode dar as costas, ir embora de encontro ao dia, mes-mo sabendo que na luz feneceria; pode resgatar importâncias, calar-se ao atentar a infância e e talvez sorrir aguardando com paciência um novo breu.

André Anlub e Rogério Camargo



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