Romero e Julita


Romero e Julita

Romero conheceu Julita em um luau na cidade de Arraial do Sana, distrito de Macaé no Rio de Janeiro. Era semana santa, a fogueira queimava forte, as salsichas assando e o calor espantava quem ficava a menos de dois metros do fogo. Romero chegou cedo, bem antes de Julita, e ao vê-la foi em sua direção com a caneca de vinho em uma mão e na outra seu revolver trinta e oito refrigerado. A princípio todos ficam em silencio e um ar de interrogação invade a noite. Romero, ainda em pé, olha para todos e todos lhe olham; ele agacha e diz: 
– Querem ver um verdadeiro idiota estragar a fogueira e a noite?
Então ele abre o tambor de seu revolver, tira uma bala, dá um sorriso maroto e a joga na fogueira. Chega a levantar umas pequenas brasas e a fazer um ruído rápido; mas não tão rápido como o levantar das pessoas de suas cadeiras, agoniados com o acontecido. 
– Meu deus, quem é você? Parece que comeu estrume! – Com os punhos cerrados, protestou em tom forte Julita. Havia ficado bastante nervosa, com os olhos esbugalhados de pavor e a pele arrepiada. 
– Pode até matar alguém quando ela estourar – diz Mario, que já era um conhecido de longas datas de Romero. Então, ele em um gesto rápido, toma a arma da mão de Romero, a joga no chão, e eles ensaiam uma briga – não chegando a vias de fato. Mario pega a arma de volta e realmente confirma que estava quase inteiramente municiada – faltando justamente um projétil. A galera então se exalta, uns se retiram rapidamente, outros vão encher baldes de água, quando Romero tirando algo do bolso enfim se entregou: 
– Calma gente, eu joguei uma pedrinha. Olhem a bala aqui! – Abrindo a palma da mão e mostrando a maldita que quase estragou aquela noite poética.
Julita pensou que jamais poderia ser amiga de alguém tão insano. Mas o destino iria dizer outra coisa. 
Romero acordou junto com o sol naquela fria manhã de domingo, colocou um bom jazz no seu som, abriu a janela e deu de cara com um colibri que o fitou com olhar de ‘bom dia’. Lavou seu rosto e lembrou de seu estranho sonho com uma amiga antiga, Julita, a qual ele já não a via há cinco anos. Eles eram muito amigos, e a reciprocidade era tão evidente que gerava comentários maldosos de terceiros. Sempre pensou que existia algo mais naquela afeição e doar mútuos; mas até os tempos de hoje nunca se atreveu a perguntar a ela. Lembrou de sua maneira distinta de se vestir: adorava um moletom e chinelo de dedo, camiseta feminina com alguma estampa interessante e a corriqueira ausência do sutiã. Certa vez, pela manhã, ela bateu em sua porta usando uma longa bermuda cinza escuro, uma sandália preta bem fechada, rasteirinha, uma camisa de manga comprida cinza claro, com decote em ‘v’ e a foto da Minie sorrindo estampada. Mas o que arrematou o brilho nos olhos de Romero foi ela estar usando um pequeno boné preto, óculos escuro e seu belo sorriso que afinava seus lábios carnudos. O convidou para passear pela orla, olhar o mar, comer um sorvete e trocar uma ideia... Era tudo que ele queria; aliás, ela sempre sabia o que ele desejava a cada momento (quase mágico), até quando o desejo lhe faltava. Era uma menina simples, porém com os cabelos muito bem tratados, lisos, longos e pretos, um corte com franja reta, olhos vivos e belos, levemente caídos, nenhuma maquiagem e um sorriso cativante e sincero, porém raro. Eles ficaram amigos, pois por ironia do destino, na volta da viagem de Arraial do Sana, em uma festa local descobriram que moravam no mesmo bairro. Romero nunca se perdoou de não conseguir se recordar com perfeição de como essa bela e enigmática amizade começou... pois em Sana, e na festa que se encontraram, eles trocaram pouquíssimas palavras e olhares. Mas como jamais poderiam imaginar, com o tempo ela haveria de se tornar uma espécie de confiável confidente, também uma espécie de escudeira a quem poderia pedir auxílio e também prestar com uma enorme desenvoltura e todo o encanto possível – estavam sempre prontos um para o outro. Mesmo com um “rolo” na época, um quase namoro de Romero com uma menina muito jovem de nome Maria Rita; ele não abriu mão de ver Julita com frequência, pedir seus conselhos, querer sua companhia e demonstrar seu afeto – penso até que aumentaram os encontros – o que gerava conflitos com Maria Rita. Mas uma mudança brusca de cidade de Romero acabou os separando, deixando-os anos distantes. Romero se casou com sua namorada nova, enquanto Julita pulava de namoro em namoro que duravam pouco. Certa vez em uma manhã bucólica, na cidade de Itaipava, onde Romero havia se mudado, ele recebe a visita de Mario, o qual lhe conta em segredo notícias de Julita – antes mesmo de Romero perguntar.
– Sabe, meu amigo Ro, Julita “colocou a viola no saco”, foi morar no exterior; ela se casou com um Francês e viajou assim que a filha nasceu.
– Nossa, por que você não me ligou avisando?! – Disse Romero abaixando a cabeça.
– Antes de pegar o avião, ela me pediu encarecidamente para me despedir de você por ela; também deixou um recado que sempre o teve no coração e em sua alma, e te esperou o quanto pode.
Romero deu um profundo suspiro, seus olhos marejaram e ele segurou a dor para mais tarde, em sua cama que é lugar quente – como diz o ditado popular. Por fim foi ao quarto e pegou o livro de Shakespeare ao qual estava lendo; o mostrou a Mario e sussurrou:
– Vejo, Mario, que minha história com ela tem um pouco a ver com esse livro, só que às avessas. Subestimei meu amor e não abri espaço para receber o dela. Sinto-me fadado a sofrer até meus últimos dias.
Mario vai em direção ao amigo e desfere um longo abraço apertado nele. Vai ao seu ouvido e diz bem baixinho: 
– Sim meu caro amigo, foi uma história triste, mas de final previsível. Sinto por vocês.
Naquele exato momento Romero e Julita cruzaram pensamentos, e os dois – como por milagre – chegam a uma terrível conclusão: é inquestionável que os dois estão vivos; mas não há dúvidas que com seus corações fenecidos. 

André Anlub

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