Dueto CLXXVII


Dueto CLXXVII (14/6/15)

O cheiro chega mansinho e arrasando, parece dar colorido ao local.
Toma conta e faz as contas: o mundo é grande, mas ele também.
A mentira esconde na terra sua cara e a verdade retorna célere do além; a terra torna-se improdutiva enquanto o além protesta pelo retorno da verdade.
O aroma do inconformismo se espalha: não é possível viver com tanta morte.
A sorte estava lançada: vamos erguer nossas espadas, acender os incensos e nos doar por inteiro.
A promessa de um mundo novo no grito do mundo velho. A promessa da renovação na ânsia da permanência.
A carência de cor em pleno arco-íris no céu. Ao léu, jogados sem escrúpulos, estão tudo e todos.
A novidade é a mesma de sempre. A surpresa é estarem todos ali como sempre estiveram. E um vento quente, abafado, fazendo as vezes de alívio.
O corriqueiro estava ausente, banalizou o momento e resolveu só voltar na próxima sexta ao cair da tarde.
Enquanto isso, é isso. E aquilo que poderia ser vai-se também diluindo em um aroma de frustração.
Aparecem quatro pegadas de entendimento e o cheiro ao mesmo tempo transmuta em algo bom. Um aroma de nova residência com misto de sexo e inocência jamais visto no real ou na imaginação.
É o velho mudando de casa, dando uma tinta nas paredes, trocando os móveis, trocando as roupas, trocando os trocados.
É o novo que surge do velho e reaprende coisas novas mantendo e ensinando as antigas: velhas canções em novas vozes e velhas vozes em novas canções.
Tudo igual diferente, tudo diferente igual. É sempre a vida, mais que tudo, com o sopro de tudo que tenta ser maior do que ela. 

Rogério Camargo e André Anlub

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