Ótima terça!


PAPEL
Carlos Drummond de Andrade

E tudo que pensei
E tudo que eu falei
E tudo que me contaram
Era papel.

E tudo que descobri
Amei
Detestei: papel.

Papel quanto havia em mim
E nos outros, papel!
De jornal, de embrulho.
Papel de papel, papelão!


EU QUERIA TRAZER-TE UNS VERSOS MUITO LINDOS 

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo, 
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do PAPEL... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!

Mario Quintana


Balão - Ricardo Azevedo

Podia ser de aço inoxidável como o avião a jato,
mas é de papel colorido, varetas de madeira, cola, barbante e arame.
Podia ser sério e exato como os foguetes teleguiados,
mas é à toa e nem sabe aonde quer chegar.

É frágil, mas o passarinho também é.
Mesmo assim, insiste em cumprir sua missão:

partir por partir,
ser um eterno aprendiz,
viver cheio de fogo,
enfeitar o espaço,
e, por último,
iluminar, mesmo que provisoriamente, a escuridão.


Manoel de Barros, por Lesma.
Venho de um Cuiabá de garimpos e de ruelas entortadas.
Meu pai teve uma venda no Beco da Marinha, onde nasci.
Me criei no PANTANAL de Corumbá entre bichos do chão,
aves, pessoas humildes, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de estar
entre pedras e lagartos.
Já publiquei 10 livros de poesia: ao publicá-los me sinto
meio desonrado e fujo para o PANTANAL onde sou
abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei — pelo que
fui salvo.
Não estou na sarjeta porque herdei uma fazenda de gado.
Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer da moral porque só faço
coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

- Manoel de Barros, do "Livro das Ignorãças", Editora Civilização Brasileira - Rio de Janeiro, 1993, pág. 107.


O homem do campo é
O futuro do País
Não tem calçado no pé
Não tem riqueza e verniz! 

Levanta de madrugada
Despede-se de Maria
Pega a foice e enxada
Trabalha com alegria.

É feliz e não reclama
Do pouco que ele recebe.
Mas ora, e por Deus chama
Que o seu esforço percebe.

Milla Pereira


Ora Até que Enfim
Ora até que enfim..., perfeitamente... 
Cá está ela! 
Tenho a loucura exatamente na cabeça
Meu coração estourou como uma bomba de pataco, 
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima... 

Graças a Deus que estou doido! 
Que tudo quanto dei me voltou em lixo, 
E, como cuspo atirado ao vento, 
Me dispersou pela cara livre! 
Que tudo quanto fui se me atou aos pés, 
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma! 
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta 
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada! 

Graças a Deus, porque, como na bebedeira, 
Isto é uma solução. 
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago! 
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos! 

Poesia transcendental, já a fiz também! 
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram! 
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários — 
Também não é novidade. 
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim... 
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o. 
Com esforço, mas era para bom fim. 
Ao menos era para um fim. 
E assim como sou não tenho nem fim nem vida... 

Álvaro de Campos, in "Poemas"


Segredo 

Andorinha no fio
escutou um SEGREDO.
Foi à torre da igreja,
cochichou com o sino.
E o sino bem alto:
delém-dem
delém-dem
delém-dem
dem-dem!
Toda a cidade
ficou sabendo.

- Henriqueta Lisboa


SONETO DE DEVOÇÃO
Vinícius de Moraes - RJ, 1938)

Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um MUNDO! — uma cadela
Talvez... — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!


Amigo

1. 
Amigo, toma para ti o que quiseres, 
passeia o teu olhar pelos meus recantos, 
e se assim o desejas, dou-te a alma inteira, 
com suas brancas avenidas e canções. 

2. 
Amigo - faz com que na tarde se desvaneça 
este inútil e velho desejo de vencer. 

Bebe do meu cântaro se tens sede. 

AMIGO - faz com que na tarde se desvaneça 
este desejo de que todas as roseiras 
me pertençam. 

Amigo, 
se tens fome come do meu pão. 

3. 
Tudo, amigo, o fiz para ti. Tudo isto 
que sem olhares verás na minha casa vazia: 
tudo isto que sobe pelo muros direitos 
- como o meu coração - sempre buscando altura. 

Sorris-te - amigo. Que importa! Ninguém sabe 
entregar nas mãos o que se esconde dentro, 
mas eu dou-te a alma, ânfora de suaves néctares, 
e toda eu ta dou... Menos aquela lembrança... 

... Que na minha herdade vazia aquele amor perdido 
é uma rosa branca que se abre em silêncio... 

Pablo Neruda, in "Crepusculário" 
Tradução de Rui Lage


Eis a casa

Eis a casa
menos que ar
imponderável,
no entanto é branca de camélia
e tem perfume de cal

Com seus corredores

O alpendre

As janelas uma a uma

Vê-se o mar. As montanhas. O trem passando
O gasómetro

Vêm-se as árvores por cima com suas flores

A CASA imponderável

Mas de cimento madeira tijolos ferro vidro

A pintura prateada das grades cheira a óleo a fruta a luz

A água a pingar cheira a musgo,
soa metálica, trémula
insetos pássaros líquidos
pequenas estrelas
clarins muito longe

Peitoris gastos de braços antigos
Sombras de borboletas

Eu sei quem comprou a terra
quem pensou nos desenhos
quem carregou as telhas

Passam legiões de formigas pelos patamares

Eu sei de quem era a casa
quem morou na casa
quem morreu

Eu sei quem não pôde viver na casa

É uma casa
com seus andares
suas escadas
seus corredores
varandas
aposentos
alvenaria
muros

imponderável.

Uma casa qualquer.
Cruz que se carrega.
Imponderavelmente, para sempre, às costas.

Cecília Meireles

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