ALGUNS MINICONTOS

- Você não é a palavra mágica?
- Não, não sou.
- Claro que é! Tô reconhecendo você pela falta do cedilha.
- Cedilha?
- Claro. E a falta das aspas também. Eu nunca me engano, minha chapa. Você é a palavra mágica, sim!
- E se eu fosse, o que é que tinha?
- Tinha que eu ia te explorar, óbvio.
- É por isso que eu não sou.


- Esta noite vou deixar o carro na rua.
- Mas por que, com essa garagem tão grande aqui em casa?
- Pra ele aprender a dar valor ao que é bom.


Não foi isso que Catinaldo planejou quando planejou aquilo, mas é com isso que Catinaldo tem que se haver por ter planejado aquilo. E dizer PQP não adianta porcaria nenhuma.


- Olha, é um tremendo jogador.
- Hum.
- É, sim. Só não tem muito fôlego, cansa logo, pulmões fracos. Mas é um tremendo jogador.
- Hum.
- Tô te falando. Não sabe cabecear, também, e foge das divididas. Mas é um tremendo jogador.
- Hum.
- Vai por mim. O domínio de bola dele não é bom e erra muitos passes. Mas é um tremendo jogador.
- Tá, me convenceu. Manda falar comigo segunda-feira.


- Eu não sei pensar isso de outro jeito, Donalva. Você tá a fim de acabar com tudo, só pode ser isso.
- Mas que bobagem, de onde é que você tirou essa ideia?
- Você saiu de casa.
- Isso não quer dizer nada.
- E está morando com outro cara.
- Isso também não quer dizer nada.
- E está grávida dele.
- Um detalhe atoa.
- Quer dizer que nosso casamento ainda existe?
- Mais forte que nunca.


A estrela viajou muito até pousar na mão do sonho e ser levada pela mão do sonho a sonhar coisas que sempre quis mas achava que uma estrela não podia.


- Que teu pai não te ouça!
- Ah, quantas vezes eu já disse isso na frente dele?
- Nenhuma, que eu saiba.
- Mas você não sabe tudo, sabe?

Desta hora de mortes extraio os minutos eternos de vida e sinto que estou sorrindo quando finjo acreditar nelas.


“Da minha cama para o mundo”, declarava Mirka Flona, tonta de autoimportância, como se aquela câmera na parede do seu quarto fosse mesmo o olho do universo.


- Não quero te machucar.
- Ah, não? Então bote os pés em outro lugar, por gentileza.


O nome do que não tem nome sorri mansamente com os nomes que lhe dão. Um sorriso que ninguém fotografa.


Querendo deixar os filhos bem preparados para tudo que der e vier, Asquinalvo mostra-lhes a toda hora o que fez e não deveria ter feito. Só não lhes mostra o que faz e não deveria estar fazendo.


- Vô, o que é “manutenção do sistema?”
- Onde raios você ouviu isso, Carlinhos?
- Num programa de entrevistas.
- Cáspite! O que foi que aconteceu com o D. Pixote e com o Zé Colmeia do meu tempo?
- O que?
- Nada. Manutenção do sistema é assim, presta atenção. Só tem uma vaga para uma coisa muito cobiçada e mais de mil candidatos para ela. Todos eles vão se esforçar para consegui-la e nenhum vai desistir se lhes disserem que só um vai ganhar. “É, mas se este um for eu?”, responderão todos. E, com isso, ajudam a manter o sistema.
- Que sistema?
- O sistema da cobiça, da competição, da ilusão de que o prêmio vale qualquer sacrifício. Entendeu?
- Acho que sim.
- Qualquer coisa, pega minhas fitas do D. Pixote e do Zé Colmeia.


(ROGÉRIO CAMARGO)

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