27 de dezembro de 2020









OS DEMÔNIOS DO DEMÔNIO

Eduardo Galeano


Esta é uma modesta contribuição à guerra do Bem contra o Mal. Entre os diversos semblantes do Príncipe das Trevas, só estão os demônios que existem há muito, muito tempo, e que há séculos ou milênios continuam ativos no mundo


A experiência prova que a ameaça do inferno é sempre mais eficaz que a promessa do Céu. Benditos sejam os inimigos


O Demônio é mulçumano

Dante já sabia que Maomé era terrorista. Por alguma razão o colocou em um dos círculos do inferno, condenado à pena de prisão perpétua. “O vi partido”, celebrou o poeta em A Divina Comédia , “desde a barba até a parte inferior do ventre...”. Mais de um Papa já tinham comprovado que as hordas muçulmanas, que atormentavam a Cristandade, não eram formadas por seres de carne e osso, eram um grande exército de demônios que aumentava quanto mais sofria com os golpes das lanças, das espadas e dos arcabuzes.


Hoje em dia, os mísseis fabricam muito mais inimigos que os inimigos das entranhas. Porém, que seria de Deus, afinal de contas, sem inimigos? O medo impera, as guerras existem para desbaratar o medo. A experiência prova que a ameaça do inferno é sempre mais eficaz que a promessa do Céu. Benditos sejam os inimigos. Na Idade Média, cada vez que o trono tremia, por bancarrota ou fúria popular, os reis cristãos denunciavam o perigo muçulmano, desatavam o pânico, lançavam uma nova Cruzada, o santo remédio. Agora, há pouco tempo, George W. Bush foi reeleito presidente do planeta graças o oportuno aparecimento de Bin Laden, o grande Satã do reino, que as vésperas das eleições anunciou, pela televisão, que ia comer todas as crianças.


Lá pelo ano de 1564, o especialista em demonologia Johann Wier teria contado os demônios que estavam trabalhando na terra, a tempo integral, a favor da perdição das almas cristãs. Eram sete milhões quatrocentos e nove mil cento e vinte sete, que agiam divididos em setenta e nove legiões.


Muita água fervente passou, depois daquele censo, debaixo das pontes do inferno. Quantos são, hoje em dia, os enviados do reino das trevas? As artes do teatro dificultam as contas. Estes falsos continuam usando turbantes, para ocultar seus cornos, e longas túnicas tampam os rabos do dragão, suas asas de morcego e a bomba que carregam debaixo do braço.


A colossal carnificina organizada por Hitler culminou uma longa história de perseguição e humilhação


O Demônio é judeu

Hitler não inventou nada. Há mil anos, os judeus são os imperdoáveis assassinos de Jesus e os culpados de todas as culpas. Como? Jesus era judeu? E judeus eram também os doze apóstolos e os quatro evangelistas? O que você disse? Não pode ser. As verdades reveladas estão além das dúvidas e não exigem mais evidências do que a própria existência. As coisas são como se diz que são, e se diz porque se sabe: nas sinagogas o Demônio dá aulas, e os judeus desde há muito se dedicam a profanar hóstias e a envenenar águas bentas. Por causa deles aconteceram bancarrotas econômicas, crises financeiras e derrotas dos militares; são eles que trouxeram a febre amarela e a peste negra e todas as outras pestes.


A Inglaterra os expulsou, nenhum escapou, no ano de 1290, porém isso não impediu Chaucer, Marlowe e Shakespeare, que nunca tinham visto um judeu, fossem obedientes à caricatura tradicional e reproduzissem personagens judeus segundo o modelo satânico de parasita sanguessuga e o avaro usurário. Acusados de servir ao Maligno, estes malditos andaram durante séculos de expulsão em expulsão e de matança em matança. Depois da Inglaterra foram sucessivamente expulsos da França, Áustria, Espanha, Portugal e de numerosas cidades suíças, alemães e italianos. Os reis católicos Izabel e Fernando expulsaram os judeus e também os muçulmanos porque sujavam o sangue. Os judeus haviam vivido na Espanha durante treze séculos. Levaram com eles as chaves de suas casas. Há quem as guardem ainda. Nunca mais voltaram.


A colossal carnificina organizada por Hitler culminou uma longa história de perseguição e humilhação. A caça aos judeus tem sido sempre um esporte europeu. Agora, os palestinos, que jamais a praticaram, pagam a culpa.


“Toda a bruxaria provém da luxúria carnal, que nas mulheres é insaciável”


O Demônio é mulher

O livro Malleus Maleficarum, também chamado O martelo das bruxas, recomenda o mais ímpio exorcismo contra o demônio que tem seios e cabelos compridos.


Dois inquisidores alemães, Heinrich Kramer e Jakob Sprenger, o escreveram, a pedido do Papa Inocêncio VIII, para enfrentar as conspirações demoníacas contra a Cristandade. Foi publicado pela primeira vez em 1486 e até o final do século XVIII foi o fundamento jurídico e teológico dos tribunais da Inquisição em vários países.


Os autores afirmavam que as bruxas, do harém de Satanás, representavam as mulheres em estado natural: “Toda bruxaria provém da luxúria carnal, que nas mulheres é insaciável”. E demonstravam que “esses seres de aspecto belo, cujo contato é fétido e a companhia mortal” encantavam os homens e os atraíam com silvos de serpentes, rabos de escorpião, para aniquilá-los. Os autores advertiam aos incautos: “A mulher é mais amarga que a morte. É uma armadilha. Seu coração, uma rede; e correias, seus braços”.


Esse tratado de criminologia, que enviou milhares de mulheres às fogueiras da Inquisição, aconselhava que todas as suspeitas de bruxaria fossem submetidas à tortura. Se confessassem, mereceriam o fogo. Se não confessassem também, porque só uma bruxa, fortalecida por seu amante, o Demônio, nos conciliábulos das bruxas, poderia resistir a semelhante suplício sem soltar a língua.


O papa Honório III sentenciara que o sacerdócio era coisa de machos: - As mulheres não devem falar. Seus lábios têm o estigma de Eva, que provocou a perdição dos homens.


Oito séculos depois, a Igreja Católica continua negando o púlpito às filhas de Eva.


O mesmo pânico faz com que os mulçumanos fundamentalistas as mutilem o sexo e lhes cubram a cara.


E o alívio pelo perigo conjurado leva os judeus mais ortodoxos a começar o dia sussurrando: “Graças, Senhor, por não me ter feito mulher”.


Em nenhum lugar do mundo se levou em conta os muitos homossexuais condenados ao suplício ou a morte pelo delito de sê-lo


O Demônio é homossexual

Desde 1446, os homossexuais iam para a fogueira em Portugal. Desde 1497 eram queimados vivos na Espanha. O fogo era o destino merecido pelos filhos do inferno, que surgiam do fogo.


Na América, ao contrário, os conquistadores preferiam jogá-los aos cachorros. Vasco Núnez de Balboa, que entregou muitos deles para a refeição dos cães, acreditava que a homossexualidade era contagiosa. Cinco séculos depois, ouvi o Arcebispo de Montevidéu dizer o mesmo. Quando os conquistadores apontaram no horizonte, só os astecas e os incas, em seus impérios teocráticos, castigavam a homossexualidade com a pena de morte. Os outros americanos a toleravam e em alguns lugares a celebravam, sem proibição ou castigo.


Essa provocação insuportável devia desencadear a cólera divina. Do ponto de vista dos invasores, a varíola, o sarampo e a gripe, pestes desconhecidas que matavam índios como moscas, não vinham da Europa, mas sim do Céu. Assim, Deus castigava a libertinagem dos índios que praticavam a anormalidade com toda a naturalidade.


Nem na Europa, nem na América, nem em nenhum lugar do mundo se levou em conta os muitos homossexuais condenados ao suplício ou a morte pelo delito de sê-lo. Nada sabemos dos longínquos tempos e pouco ou nada sabemos dos tempos de agora.


Na Alemanha nazista, estes “degenerados culpados de aberrante delito contra a natureza” eram obrigados a exibir a estrela amarela. Quantos foram para os campos de concentração? Quantos lá morreram? Dez mil? Cinqüenta mil? Nunca se soube. Ninguém os contou, quase ninguém os mencionou. Tampouco se soube quantos foram os ciganos exterminados.


No dia 18 de setembro de 2002, o governo alemão e os bancos suíços resolveram “retificar a exclusão dos homossexuais entre as vítimas do Holocausto”. Levaram mais de meio século para corrigir essa omissão. A partir dessa data os homossexuais que tinham sobrevivido em Auschwitz e em outros campos, se é que ainda haja algum vivo, puderam reclamar uma indenização.


Os conquistadores cumpriram a missão de devolver a Deus o ouro, a prata e outras várias riquezas que o Demônio havia usurpado


O Demônio é índio

Os conquistadores descobriram que Satã, quando expulso da Europa, tinha encontrado refúgio na América. Nas ilhas e nas praias do mar do Caribe, beijadas dia e noite por seus lábios flamejantes, habitadas por seres bestiais que andavam nus, tal como o Demônio os havia colocado no mundo, que cultuavam o sol, a terra, as montanhas, os mananciais e outros demônios disfarçados de deuses, que chamavam de jogo ao pecado carnal e o praticavam sem horário nem contrato, que ignoravam os dez mandamentos e os sete sacramentos e os sete pecados capitais, que não conheciam a palavra pecado nem temiam o inferno, que não sabiam ler nem tinham nunca ouvido falar do direito de propriedade, nem de nenhum direito e que, como se tudo isso fosse pouco, tinham o costume de comerem uns aos outros. E crus.


A conquista da América foi uma longa e difícil tarefa de exorcismo. Tão arraigado estava o Demônio nestas terras, que quando parecia que os índios se ajoelhavam devotamente ante a Virgem, estavam na realidade adorando a serpente que ela amassava com o pé; e quando beijavam a Cruz não estavam reconhecendo ao Filho de Deus, mas estavam celebrando o encontro da chuva com a terra.


Os conquistadores cumpriram a missão de devolver a Deus o ouro, a prata e outras várias riquezas que o Demônio havia usurpado. Não foi fácil recuperar o tesouro. Ainda bem que de vez em quando recebiam alguma pequena ajuda de lá de cima. Quando o dono do inferno preparou uma emboscada em um desfiladeiro, para impedir a passagem dos espanhóis em busca da prata de Cerro Rico de Potosi, um arcanjo baixou das alturas e lhe deu uma tremenda surra.


Supunha-se que a leitura da Bíblia podia facilitar a viagem dos africanos do inferno para o paraíso, mas a Europa esqueceu de ensiná-los a ler


O Demônio é negro

Como a noite, como o pecado, o negro é inimigo da luz e da inocência.


Em seu célebre livro de viagens, Marco Pólo fala dos habitantes de Zanzibar. “Tinham uma boca muito grande, lábios muito grossos e nariz como o de um macaco. Caminhavam nus, totalmente negros e para quem de qualquer outra região que os visse acreditaria que eram demônios”.


Três séculos depois, na Espanha, Lúcifer, pintado de negro, trepado numa carroça em chamas, entrava nos pátios das comédias e nos palcos das feiras. Santa Tereza de Jesus, que viveu para combatê-lo, apesar disso nunca pode entendê-lo. Uma vez ficou ao lado e viu “um negrinho abominável”. Outra vez ela viu que do seu corpo negro saía uma chama vermelha, quando se sentou em cima de seu livro de orações e queimou os textos do ofício religioso.


Uma breve história do intercâmbio entre África e Europa: durante os séculos XVI, XVII e XVIII, a África vendia escravos e comprava fuzis. Trocava trabalho pela violência. Os fuzis punham ordem no caos infernal e a escravidão iniciava o caminho da redenção. Antes de serem marcados com ferro quente, na cara e no peito, todos os negros recebiam uma boa unção de água benta. O batismo espantava o demônio e dava alma a esses corpos vazios. Depois, durante os séculos XIX e XX, a África entregava ouro, diamantes, cobre, marfim, borracha e café e recebia Bíblias.Trocava produtos por palavras. Supunha-se que a leitura da Bíblia podia facilitar a viagem dos africanos do inferno para o paraíso, mas a Europa esqueceu de ensiná-los a ler.


O Demônio é estrangeiro

O imigrante está disponível para ser acusado como responsável pelo desemprego, a queda do salário, a insegurança pública e outras temíveis desgraças


O “culpômetro” indica que o imigrante vem roubar-nos o emprego e o “perigosímetro” acende a luz vermelha. Se for pobre, jovem e não for branco, o intruso, que veio de fora, está condenado, a primeira vista, por indigência, inclinação ao tumulto ou por ter aquela pele. De qualquer maneira, se não é pobre, nem jovem, nem escuro, deve ser mal recebido, porque chega disposto a trabalhar o dobro em troca da metade.


O pânico diante da perda do emprego é um dos medos mais poderosos entre todos os medos que nos governam nestes tempos de medo. E o imigrante está sempre disponível para ser acusado como responsável pelo desemprego, a queda do salário, a insegurança pública e outras temíveis desgraças.


Em outros tempos, a Europa distribuía para o mundo soldados, presos e camponeses mortos de fome. Estes protagonistas das aventuras coloniais passaram à história como agentes viajantes de Deus. Era a Civilização lançada nos braços da barbárie.


Agora a viagem se faz na contramão. Os que chegam, ou tentam chegar do sul em direção ao norte, não trazem nenhuma faca entre os dentes nem fuzil no ombro. Vêm de países que foram oprimidos até a última gota de seu sugo e não têm a intenção de conquistar nada além de um trabalho ou trabalhinho. Esses protagonistas das desventuras parecem, muito mais, mensageiros do Demônio. É a barbárie que toma de assalto a Civilização.

Os bens de poucos sofrem a ameaça dos males de muitos


O Demônio é pobre


Se lambem enquanto você come, espiam enquanto você dorme: os pobres espreitam. Em cada um se esconde um delinqüente, talvez um terrorista. Os bens de poucos sofrem a ameaça dos males de muitos. Nada de novo. Tem sido assim desde quando os donos de tudo não conseguem dormir e os donos de nada não conseguem comer.

Submetidas a um acossamento durante milhares de anos, as ilhas da decência estão encurraladas pelos turbulentos mares da vida desgraçada. Rugem as ondas sucessivas que forçam viver em sobressalto perpétuo. Nas cidades de nosso tempo, imensos cárceres que prendem os prisioneiros ao medo, as fortalezas dizem ser casas e as armaduras simulam ser trajes.


Estado de sítio. Não se distraia, não baixe a guarda, desconfie: você está estatisticamente marcado, mais cedo ou mais tarde terá que sofrer algum assalto, seqüestro, violação ou crime. Nos bairros malditos espreitam, ocultos, remoendo invejas, tragando rancores, os autores de sua próxima desgraça. São vagabundos, pobres diabos, bêbados, drogados, carne de cárcere ou bala, pessoas sem dentes, sem rumo e sem destino.

Ninguém os aplaude, porém os ladrões de galinha fazem o que podem imitando, modestamente, os mestres que ensinam ao mundo as fórmulas do êxito. Ninguém os compreende, porém eles aspiram serem cidadãos exemplares, como esses heróis de nosso tempo que violam a terra, envenenam o ar e a água, estrangulam salários, assassinam empregos e seqüestram países.


Eduardo Galeano

Lê Monde Diplomatique , agosto de 2005




19 de dezembro de 2020

Das Loucuras (jacaré no seco anda e tatu caminha dentro)

 




Das Loucuras (jacaré no seco anda e tatu caminha dentro)


Carros, pés, pás, maternidades e aviões – o coração indo e vindo;

Vidas trafegam no céu de frio azul e no asfalto quente e escuro...

Cores diversas que integram e entregam nosso pensar abstruso;

Roleta-russa do viver que absorvo, fuxico e deixo voar – sinto.


Estradas de terra e céus de nuvens que me remetem à adolescência;

Transparência e opacidade passadas formam o que sou hoje – mais a pimenta.

Não lamento o que se foi, e veio-me a pergunta: 'Faria tudo novamente?' 

- Provavelmente sim? Categoricamente sim!


Coisas maravilhosas como amores, amizades, conquistas, família, festas...

São consequências dos momentos bons, mas também de ocasiões ruins.


Agora posso ver o futuro, mas não conto a ninguém;

Ora, pois, o poder de saber o amanhã, não é poder é maldição.

Se a vida é um lobo raivoso; se a vida é um coelho pacato...

Não há pacto com Deus; não há pacto com o Diabo...

Farto de ouvir dizerem, de entender e de repetir: o que há é transição.


André Anlub

15 de dezembro de 2020

Das Loucuras (Le Quatorze Juillet – musas, francês e chiclete)

 











Das Loucuras (Le Quatorze Juillet – musas, francês e chiclete)


Pessoa erra, pessoa muda; 

Pessoa berra, pessoa muda.

Aonde foi que li isso antes?

“Está tudo como dantes no quartel d'Abrantes”.


Dito-cujo que surge e soa na destoante de mim

Pois ontem sonhei com um colorido laço,

No lago, casa no mato, queijo Brie, Larson

E jazz, e uisquinho, e vinho tinto e afim.


Um Sol no arrebol se fazendo de machão girassol

E uma Lua – do nada – se fazendo de viada.

E na vida:

O que não era assim tão bom,

Continua assim não tão ruim;

Há algo ótimo para ser emoldurado,

Mas não gostei da moldura...

Achei quadrada.


Por não ter tido um passado Negro,

Talvez a vida tenha passado em Branco.

Sonha com a escuridão da salinidade no pélago

E inveja a utopia de um mundo franco.


Jogou a toalha,

Riu da toada,

Exigiu arrego...

Recebeu sua herança,

Goza de boa saúde,

Largou seu emprego...

Às 6 horas na praça,

Dando milho aos pombos,

Abraçando sua graça.


Enquanto a queda da Bastilha ferve

Em outro lugar alguns unem as mãos em namastê.

Se apurar a inspiração, alimentando a verve,

Viaja-se no tempo e chega-se ao cine privê.


Tudo junto e misturado, sobe e desce elevador...

A mente aperta o treze; aperta o seis; aperta o térreo,

A superstição abre mão do preconceito etéreo 

Da loucura em andamento – sem furor de causar dor...

A imaginação enterra tudo e vai direto a Gal Gadot.


André Anlub®

5 de dezembro de 2020

O livro que fez meu cavalo livre

 












O livro que fez meu cavalo livre

(Parte I, II, III)


A priori... tudo está a contento, e sobrevivi!

Lembro-me da vastidão do picadeiro

O cavalo da loucura em galope louco.

Nunca se deixa de fazer pouco

Quando tudo se tem... é você em primeiro!


Alucinações, parábolas, cogumelos

Nos desenhos moravam duendes;

Para as crianças, eram casas...

Salgados caramelos.


Cavalguei sobre o campo de tulipas

Amassadas pelas pegadas do cavalo.

E na queimada da mata...

Pelo ralo foram-se alguns anos

Pelo corpo farejei meus desenganos.


Chorei ao deparar-me com o tempo perdido

E no dito e não dito que ignorei.

Com a felicidade tinha perdido o compromisso

E no chumaço do chá de sumiço, 

Hoje me achei.


Enfim, estacionado o cavalo.

Dei banho, água e feno

Abri o cercado do terreno

E o deixei livre ao regalo.


Se todas as tulipas fossem negras


Meu cavalo nesse momento é livre

Porém, ainda com alguns fantasmas.

Também há as estradas íngremes

Que estendem um tapete vermelho para o nada.


Agora, as tulipas estavam inteiras,

Não mais pisadas pelas patas.

Brilhantes tulipas, com cores vivas

E força para enfrentar a tempestade.


O amanhã próximo de letras e tintas

A sina que mudaria o caminhar.

Nas mãos, preparados para tocar a alma...

Os livros de Emily Dickinson e Sylvia Plath.


E as tulipas se tornaram negras

Ao conhecerem sua história e sua dor.

Regadas e afogadas pelas flores coloridas

Que também afogaram junto seu rancor.


E meu cavalo livre...


Hoje tenho novo cavalo

Ele está perto, mas não temos contato.

Ele me inspira, traz força e medo

Me respeita e impõe respeito.


O coração se abre, vejo meu próprio inventário.

Martírio empoeirado de um achaque guardado

E o amor incrustado de um todo imaginário.


Hoje a vida é um constante cenário

Como o mar que me conhece

Até mais do que eu mesmo.


A moradia na emoção 

É o botão de liga/desliga da alma incendiária.


Pago a diária desse hotel

Com a locação do meu bordel

Com o papel, meus rabiscos

E a loucura ponderada.


Os cavalos, as tulipas e uma vida


Meu cavalo relinchou por comida

Quer algo esquecido e sem fim.

Quer banquete farto e antigo

Quer minhas loucas iguarias

Pois já está farto de capim.


Meu cavalo veio à minha porta

Nessa torta manhã de domingo.

Ouvi com delicadeza sua clemência

E chorei feito menino.


Mais uma vez só vejo as tulipas negras

E o verão mergulhado no inverno.

O inferno com suas portas abertas

Badalou os sinos

E colocou o capacho de “bem-vindo”.


Mas, minha gente amiga...

Beijo a vida vadia.

Deem-me as mãos, me deem guarida

Não quero ser julgado, é covardia.


Como réu confesso, meu cavalo se vai

Some ao longe, pelo canto da estrada.

Sua estada é sempre trágica

E, como mágica, ressuscita as tulipas.


Mar de doutrina sem fim


Houve aquele longo eco daquele verso forte desafiador;

Pegou carona na onda suntuosa de todo mar agitado:

- fui peixe insano com dentes grandes e olhar de bardo;

Fui garoto, fui garoupa, fui a roupa do rei de Roma...

E vou-me novamente mesmo agora não sendo.


Construo meus barcos no sumo da imaginação:

(minhas naves, pés e rolimãs),

E como imãs com polos iguais, passo batido... 

Por ilhas virgens – praias nobres – boa brisa;

Quero ancorar nas ilhas Gregas, praias dos nudistas e ventos de ação.


Lá vem novamente as velhas orações dos poetas,

A tinta azul no papel árduo

E vozes roucas das bocas largas,

Mas prolixas: mês de maio, mais profetas.


E houve e não há, o que foi não se repete;

Indiferente das rimas de amor – vem outro repente...


O mar calmo oferece amparo:

- sou Netuno e esqueci o tridente,

Trouxe um riso com trinta e dois dentes;

Sou mistério que mora no quadrado de toda janela,

O beijo dele, dela, da alma ardente que faz o mar raro.


André Anlub®




29 de novembro de 2020

Árvore de Josué




Árvore de Josué

Isolado no deserto, na sombra da grande árvore de Josué

Escrevo alguns singelos rabiscos líricos

Com o pensamento em nossa casa, lá, distante

Em nossos cães correndo, deselegantes...

Vindo de encontro a você.


Por um instante a alma estacionada aqui se eleva

- Não há treva nem angústia

Sinto meu corpo acompanhando

Por dentro de memórias e histórias sublimes.


Sentindo o belo em todos e em tudo

Caminhando na chuva por cima de um arco-íris sem cor

Surdo para qualquer som absurdo

Um banho de chuva e de glória.


Estou no alto e vejo-me pequenino sentado

Estendo as mãos e solto um dilúvio de letras 

Elas se unem formando versos

Casam-se como bolas de neve

Banham minha carcaça, minha pele

Deixando-me ainda mais extasiado.


São dois de mim que se completam

Ilustrando para expor como me sinto

Porre de absinto de inspiração

Banho de chuva, seiva suave,

Que salva a todos – no tudo,

No corpo, no avejão.

Das Loucuras (Tal tempo)

 



Das Loucuras (Tal tempo)


O rio fica mais frio ao passar pela sua casa

A doçura do tempo que se quebra com ele

As coisas que vem e vão e se miram no espelho

São os deuses forjando politica na praça


Fizeram o exame sem vexame

Pois foram mordidos pelo enxame de abelhas...

As orelhas inchadas, as enxadas chafurdavam na areia, 

E todos olharam com afinco todos os próprios erros

Esculpiram ali, reformaram aqui, o sangue corria na veia...

Agora deixaram só as cabras reclamando aos bezerros.


A mensagem exagerada foi dada

Os dados jogados aos jogadores de dados...

Os pés novamente na estrada

E os peixes sorriram quando tudo foi alagado.


A buzina na cachola chacoalhava suavemente a bandeira e o suingue

Danças e festas, rebeliões, pés frenéticos ao embalo sísmico...

E na China tudo estava num automático pensamento crítico,

Num liga e desliga de socos na guerra dos Boxers no seu ringue.


A mensagem dessa vez foi recebida

Ecoada na toada dos tempos cheios e tempos vazios.

A caneta na mão tremia com o frio,

E na estante a garrafa chorava vazia.

28 de novembro de 2020

Nua em pelo, no pulo e num palco

 



Nua em pelo, no pulo e num palco


Nadando no gélido lago foi encontrada

feliz e pelada

com os pelos arrepiados

seus belos cabelos negros cacheados

e como seria imaginável

cantarolando aquela lacônica balada.

“...you can’t always get what you want...”

- Olhos esbugalhados, olhar simplório.

Perfil de romântica rebelde

com a sensação de estar nada errado.


Seria assim que eu a descreveria

e é assim que ela é.


Entre os dias que se passaram em sua vida

estão de um lado algumas horas que se petrificaram

na sensação de não seguir um vil modelo.


Na outra ponta da história, não menos importante

fica o momento do “replay”, 

do “Déjà vu”, 

do oposto de um pesadelo.


Quase sem querer

de repente por estar mais magra

a aliança caiu no ralo.

(num estalo a lágrima sem jeito a seguiu)


O próspero havia recebido conserto

e a velha flecha no seu peito

enferrujou e ruiu.


Os olhos agora mais secos 

caçam felicidade

e a sombra não mais se encontra por aí, 

vagando...

meramente sumiu.


A alma quer plateia, 

zelo

nada de estar sozinha.


Ela quer que outros olhos curtam seu curto vestido decotado

o sorriso do rosto com duas covinhas

e todos, mas todos, os seus pelos eriçados.


André Anlub®


Cárcere da criação II


Confinado na escrita

Vejo-lhe no espelho

Vestida, chanti

Azul turquesa, de beleza pura

A Ísis e a lua

Agora toda nua.


Sou o escriba no porão de um mundo

Sou ar puro no pulmão de uma vida.

Monta o rolo, rola a fita

Cinema mudo tinha muito que falar

Histórias e memórias

Romances e enlaces

Guerras e embates

Comédias e glórias.


Nos teatros antigos

Nas trincheiras e abrigos

Bebedouros de todos os bêbados

Copos cheios

Corpos vazios

Loucos soldados

Querendo espaço e apreço.


Confinado na escrita

As horas voam

Folhas se enchem

Ansiedade e alienação

Com sorte

Consorte

Sem premunição

Sempre.


André Anlub®

24 de novembro de 2020

Das Loucuras (Ela, Elaine e a adrenalina de Adriane)


Das Loucuras (Ela, Elaine e a adrenalina de Adriane)


Bocas se mexem juntos com suas mechas do cabelo...

Crespo, comprido, vermelho.

Meticulosamente as mãos são dadas – sem pretexto;

Mas suadas, sem querer

Pressentem o subsequente texto.


Há um terceiro amor entre elas,

O colorido pode se tornar ainda mais aquarela.

A anuência é que há de se fazer janela no lugar de grade...

Sorrisos à parte, os lábios se beijam sem queixas,

E estala então o aval da reciprocidade.


Elaine é mulher guerreira, tem a alcunha de Lorein...

No reino é povo, rainha, rei – cem mil mulheres em uma.

Ficariam o ano enumerando seus predicados – mas em suma:

Forte, decidida, olhos vivos, mãos e pernas “de matar”.


Também fiel, fêmea de alma linda, excelente filha e mãe exemplar.


Adriane é um pouco insegura, traz a alcunha de Andja

Mulher felina, sagaz, com fé, heroína que transborda paz.

De dia é camaleão de cores; a noite se camufla na escuridão...

Roga sonhos, rega amores, rasga o céu que lhe apraz.


Ainda é andarilha e relutante, com um pé à frente e o outro atrás.


E Ela? 

Ela é um segredo que com o tempo varia...

Pássaro que chega com a minhoca no ninho.

Um dia caminha comendo pitanga,

Pode ser flor, pode ser espinho...

Às vezes voa sob os olhos de Maria.


É nuvem branca que ninguém alcança,

Sabor doce nas línguas mais azedas;

Pega a separação e demuda em aliança,

Água que escorre descendo alamedas.


Vive em tempos novos e flerta com os antigos...

É Stevie Nicks, Sosa, Joplin, Joni Mitchell;

É Roberta Sá, Pitty, Elza, Alice Phoebe.


Mulher de porte e de sorte – todas numa só...

Contornos, carícias, fetiches – haja nó.

Constrói o próprio norte – tem poder para isso...

Vivem juntas, bocas conjuntas – alguém com isso?


O amor em explosão atômica, aliança sem cobrança,

Derrubando preconceitos, espalhando esperança,

Ela pode ser Ella, Nina, também Esperanza,

Diane Krall, Julie Byrne, Alice Coltrane...

Pode ser trem, pode ser zen, Billie Holiday.


André Anlub®

19 de novembro de 2020

Das loucuras (puro apego, puro ar puro, pulo sem peso para o poço)

 


Das loucuras (puro apego, puro ar puro, pulo sem peso para o poço)

Saudosismo puro, purinho, 
Purpurina nos olhos colorindo o momento;
Ouço tiros na esquina, há furos na cortina;
Traças e as balas de festim.

O cheiro doce e molhado de capim;
As estradas insalubres dos amargurados;
Tudo dentro e fora de uma miragem:
O desprezo que perdeu a viagem.

Certos tipos de egoístas não possuem somente egoísmo,
Tem também indiferença diante desse sentimento tão ruim.
Mas não é hora de ressentimento e lavar a roupa suja,
Mas cabem nesse instante as palavras secretas intrusas: 
Hora de se descobrir.

No sonho, numa bela manhã,
Decomporá toda essa inútil asneira,
O egoísmo enfim vai acabar
E o sol voltará a brilhar através das peneiras.
Sim, pois durará pouco – pessimismo barato, porém realista...
Cintilantes verdades, obscuridade e claridade,
Muitas vezes antes vistas.

Aquele indivíduo prócer,
Próximo da perfeição, pro céu – adoração.

Olho gordo é o que não falta,
Mas foca-se no que os deuses falam – tome nota:
Há de se levar a paz, ter boa índole,
Não desejar o mal, amar e ser amado...
De resto muita coisa pode ser feita:
Seguir, se erguer, erguer os amigos;
Isso ou aquilo são detalhes... 
Mas esse preceito não foi feito para ser quebrado.

André Anlub

Das Loucuras (se cura, se curta, secura não é cicuta)

Quem ainda está vivo poderá eternamente surpreender;
A palavra ‘nunca’, mesmo no presente, tem o teor de passado...
Só ao morrer – de verdade, deitado – ela poderá se encaixar nos atos.

Viva, veja, verse, voe e respeite – tão-somente – os outros viventes.
É tudo um velho-novo, é tudo noite, dia, céu azul e nuvens, arrebol;
Mil ofícios, orifícios, sacrifícios e os medos em tê-los...
Nos esquecemos dos edifícios que se multiplicam calando o sol.

O estranho é que só não há receio de manter seu ego,
Tampouco de novamente pôr um homem puro no prego;
Não há receio de se viver morto (num esgoto de ouro)...
Mas há de se inverter o apego, na falsa visão de ralo,
E mais temor ainda do mundo expor o Falo.

Os falsos segredos são os mesmos (nossos membros),
Fazem zumbis pedirem bis ao saírem de seus sarcófagos.
Seguidores do sagrado não são vistos como tolos,
Apenas alguns que se acham cerejas de todos os bolos.

Há perseguição aos que falam outros dialetos,
São criticados, difamados, agredidos por pseudófobos.

André Anlub

18 de novembro de 2020

Excelente noite

"Quatro meninos foram ao campo e por 100 reais compraram o burro de um velho camponês.
O homem combinou entregar-lhes o animal no dia seguinte.
Mas quando eles voltaram para levar o burro, o camponês lhes disse:
- Sinto muito, amigos, mas tenho uma má notícia. O burro morreu.
- Então devolva-nos o dinheiro!
- Não posso, já o gastei todo.
- Então, de qualquer forma, queremos o burro.
- E para que o querem? O que vão fazer com ele?
- Nós vamos rifá-lo.
- Estão loucos? Como vão rifar um burro morto?
- Obviamente, não vamos dizer a ninguém que ele está morto.
Um mês depois, o camponês se encontrou novamente com os quatro garotos
e lhes perguntou:
- E então, o que aconteceu com o burro?
- Como lhe dissemos, o rifamos. Vendemos 500 números a 2 reais cada um
e arrecadamos 1.000 reais.
- E ninguém se queixou?
- Só o ganhador. Porém lhe devolvemos os 2 reais e ficou tudo resolvido. 
- Os quatro meninos cresceram e fundaram um banco chamado Opportunity, um outro Banco chamado Marka, uma igreja chamada Universal e o último tornou-se Ministro do Supremo Tribunal Federal."

4 de novembro de 2020

Das Loucuras (perninha de grilo, mas que dá onda)

 



Das Loucuras (perninha de grilo, mas que dá onda)


Ele com os olhos em fogo

Comendo uma caixa de figo;

Ela com a boca seca

Bebendo com sede um litro de suco.


Casal romântico:

Amor nos corações batendo inocentes.

Asfixiados pelo tempo passado;

Absolvidos pelo presente.


Bichos bípedes e verdes

Voam com leves asas;

Dispensam as raivas e mágoas,

Sempre plantam sementes.


No verão saem sorridentes

Pelos ares dos bosques,

Indo às luzes dos postes,

Transformam-se novamente.


Ele varia de inseto a inseto

E às vezes arrisca ser gente;

Ela diz que o pôr-do-sol é atraente

E escuta Beatles adoidado.


Casal de loucos varridos;

Ela usa vassoura e ele a pá de lixo.

Respiram tranquilos

Na lama macia do leito do rio;

Ele coaxa alto em martelo,

Ela gentilmente o aquece do frio. 


André Anlub®


3 de novembro de 2020

excelente terça a todos



15 melhores poemas de Charles Bukowski, traduzidos e analisados

Carolina Marcello
Mestre em Estudos Literários, Culturais e Interartes

Charles Bukowski é um dos nomes mais polêmicos e também mais amados da literatura norte-americana. Conhecido popularmente como o "Velho Safado", deixou várias composições sobre a sexualidade e também sobre a condição humana.

Conheça, abaixo, os 15 poemas mais famosos do autor, traduzidos e analisados.

1. O pássaro azul
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?

(Tradução: Paulo Gonzaga)

Este é, sem dúvida, um dos poemas mais célebres do autor e aquele cuja tradução suscita mais interesse junto do público de língua portuguesa. O próprio título está carregado de simbologia: o animal preso, enjaulado em seu peito, parece representar a tentativa de controlar as emoções. Já a cor azul remete para os sentimentos de tristeza, melancolia e depressão.

Falando desse "pássaro azul", o sujeito lírico parece simbolizar os sentimentos que mantem escondidos porque é "duro demais" consigo mesmo e não se permite parecer frágil aos olhos de ninguém. Por isso, reprime as suas emoções, se distrai e anestesia com álcool, sexo casual e cenas repetitivas de vida noturna.

Suas interações com os outros são superficiais, baseadas em interesses monetários (atendentes de bar, prostitutas). É evidente a falta de intimidade, de partilha, de laços e também a vontade do sujeito de se esconder. Sem relacionamentos profundos, se convence que os outros "nunca saberão" aquilo que está sentindo.

Assim, luta consigo mesmo, tentando contrariar a própria fragilidade, acreditando que será a sua ruína, afetando a qualidade da escrita e, consequentemente, a venda de livros.

Se assumindo enquanto autor, enquanto figura pública, deixa patente que precisa manter as aparências, corresponder às expectativas, independentemente de seu estado de espírito.

Perante esse contexto de autocensura, só permite que a tristeza se manifeste durante a noite, enquanto o resto do mundo dorme. Aí, finalmente, pode reconhecer a sua dor, manter um diálogo interior e, de certa forma, fazer as pazes com o seu coração.

Durante a noite, consegue se consolar, acalmar o desespero, mantendo o seu "pacto secreto". Carregando o sofrimento sozinho, sem a possibilidade de o dividir com ninguém, o sujeito encontra na poesia uma forma de se comunicar, um veículo que possibilita um desabafo.

Mesmo assim, no últimos versos, volta a erguer a fachada de indiferença perante o mundo, afirmando também a sua incapacidade de gerir e reconhecer a própria tristeza: "mas eu não / choro, e / você?".

2. O coração risonho
Sua vida é sua vida
Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão.
Esteja atento.
Existem outros caminhos.
E em algum lugar, ainda existe luz.
Pode não ser muita luz, mas
ela vence a escuridão
Esteja atento.
Os deuses vão lhe oferecer oportunidades.
Reconheça-as.
Agarre-as.
Você não pode vencer a morte,
mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes.
E quanto mais você aprender a fazer isso,
mais luz vai existir.
Sua vida é sua vida.
Conheça-a enquanto ela ainda é sua.
Você é maravilhoso.
Os deuses esperam para se deliciar
em você.

Tal como o título sugere, esta é uma composição que traz uma mensagem positiva, de encorajamento, para quem lê. Discursando a favor da autonomia, da autodeterminação e da vontade de cada um, o sujeito se dirige ao leitor. Recomenda que ele não ceda à "fria submissão": as regras de conduta, expectativas, normas que a sociedade impõe.

Em vez dessa aceitação passiva da vida, lembra que existe a possibilidade de seguir "outros caminhos" e repete sobre a necessidade de estar "atento" e não alienado ou desligado de tudo.

Apesar das dificuldades do mundo real, o sujeito acredita que existe ainda uma réstia de luz, um raio de esperança que "vence a escuridão".

Vai mais longe, afirmando que "os deuses" vão ajudar, criando as oportunidades, e que cabe a cada um reconhecê-las e aproveitá-las. Mesmo sabendo que o fim é inevitável, sublinha que é necessário assumirmos as rédeas do nosso destino enquanto temos tempo, "vencer a morte durante a vida".

Demonstra ainda que o esforço para ter uma visão positiva da realidade pode ajudar a melhorá-la e que quanto mais tentarmos, "mais luz vai existir". Os dois versos finais, contudo, relembram a urgência desse processo. A vida está passando e os mesmos deuses que nos amparam agora, vão nos devorar no final, como Cronos, deus do tempo na mitologia grega, que comia seus filhos.

3. Sozinho com todo mundo
a carne cobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homem bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.

de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.

ninguém nunca encontra
o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam

nada mais
se completa.

(Tradução: Pedro Gonzaga)

Nesta composição, Bukowski lamenta a solidão inevitável do ser humano, que se sente profundamente isolado mesmo vivendo em sociedade. Feito de "carne", "mente" e "algumas vezes uma alma", o individuo está cansado, derrotado pela impossibilidade do amor e seus eternos desencontros.

Essa frustração coletiva faz com que o sujeito represente as mulheres como estando sempre zangadas e os homens sempre bêbados, porque "ninguém encontra o par ideal". Mesmo assim, insistem e continuam "rastejando para dentro e para fora dos leitos".

Não procuram apenas o contato físico mas, acima de tudo, a proximidade: "carne busca mais que carne". Por isso, todos estão condenados a sofrer, já que "não há qualquer chance". O eu lírico deixa patente a sua total descrença e pessimismo.

Lamentando, refere lixeiras e ferros-velhos onde os objetos inúteis são reunidos. Em seguida, recorda que entre os seres humanos, apenas os loucos e os mortos estão próximos, "nada mais se completa". Ou seja, todos aqueles que estão vivos e supostamente sãos, cumprem o mesmo destino: estar "sozinho com todo o mundo".

4. Então queres ser um escritor
se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.
e nunca houve.

(Tradução: Manuel A. Domingos)

Este é um dos momentos em que Bukowski usa a sua obra poética para comunicar diretamente com os outros escritores do seu tempo, principalmente aqueles que admiram e seguem o seu trabalho.

Visto como um mestre para muitos que estavam começando a sua carreira na literatura, fala com os futuros escritores e deixa algumas recomendações para que os seus trabalhos sejam relevantes. Deixa explícito que a criação não deve ser forçada, não pode ser um trabalho árduo e repetitivo.

Pelo contrário, tem que ser algo que "sai de ti a explodir", "das entranhas", "sem perguntar". Se escrever não for uma coisa natural, "que saia de ti a gritar", "como um míssil", o sujeito acredita que não vale a pena tentar.

Nesse caso, apenas recomenda que desistam: "não o faças", "faz outra coisa", "não estás preparado". Sublinha ainda que dinheiro, fama e popularidade não são motivações válidas para ingressar no mundo da literatura.

Aproveita também para dar a sua opinião sobre os colegas de profissão, declarando que são chatos, pedantes e egocêntricos. Para exprimir o seu aborrecimento perante o panorama literário contemporâneo utiliza a personificação, transformando as bibliotecas em pessoas bocejando.

Na sua visão, a escrita não é uma escolha, mas algo necessário, vital, inevitável, sem o qual ponderaria o "suicídio". Aconselha, então, que esperem pelo momento certo, que chegará de forma natural para os que forem "escolhidos".

5. Como está seu coração?
durante meus piores momentos
nos bancos de praça
nas cadeias
ou vivendo com
putas
eu sempre tive um certo bem-estar –
eu não chamaria de
felicidade –
era mais algo como um equilíbrio
interno
que se contentava com
o que quer que estivesse ocorrendo
e ajudava-me nas
fábricas
e quando os relacionamentos
não davam certo
com as
mulheres.
ajudou-me
através
das guerras e das
ressacas
as brigas em becos
os
hospitais.
acordar em um quarto barato
numa cidade estranha e
abrir as cortinas –
esse era o tipo mais louco de
contentamento.

e andar pelo chão
até uma pia velha com um
espelho rachado –
ver a mim mesmo, feio,
com um sorriso largo diante de tudo aquilo.
o que mais importa é
quão bem você
caminha pelo
fogo.

(Tradução: Daniel Grimoni)

"Como está seu coração?" é um poema impactante logo pelo título, que questiona o leitor, levando-o a pensar naquilo que está sentindo. Trata-se de um hino à resiliência, à capacidade de encontrar satisfação ou felicidade até nos piores momentos da vida. Nos episódios mais difíceis que o sujeito passou, no trabalho, na cadeia, na guerra ou no final de uma relação, pôde sempre contar com um "equilíbrio interno" que o segurou.

Apesar de todos os obstáculos, conseguiu sempre se manter animado com coisas simples, como "abrir a cortina". Essa alegria que não exige nada em troca é descrita como o "tipo mais louco de contentamento". Mesmo em um quarto barato, vê o reflexo de seu rosto "feio, com um sorriso largo" e se aceita, aceita a realidade como ela é.

Assim, reflete sobre o seu modo de estar na vida. Realça que o que importa é "quão bem você caminha pelo fogo", ou seja, a capacidade de ultrapassar os obstáculos, mesmo os piores, sem perder a alegria e a vontade de viver.

6. Um poema de amor
Todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.

suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.

principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.

há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.

sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar — eu estava ocupado
com coisas maiores.

mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só um
aprendiz.

sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra. sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.

essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.

(Tradução: Jorge Wanderley)

Embora este seja um "poema de amor", não tem uma destinatária, não há uma companheira ou pretendente para a qual o sujeito se declara. Trata-se de uma composição destinada a "todas as mulheres" com as quais se relaciona.

A partir da segunda estrofe, lembrando dessas figuras femininas, começa a enumerar partes do corpo, peças de roupa, objetos existentes nos seus quartos. A impressão é que são apenas flashes, momentos aleatórios que surgem na sua memória.

Fala também das vivências dessas mulheres, de seus passados, sugerindo que são todas parecidas, que sofrem e precisam alguma forma de salvação.

Comparando os seus corpos a pedaços de pão, e encarando as parceiras como objetos que precisa ter, consumir, declara que nunca as machucou e foi um mero "aprendiz".

Mesmo que tenha amado "só umas poucas" e viva relações fugares ou não correspondidas, assume que foram elas que o "sustentaram". Ainda que fossem superficiais, aqueles momentos de intimidade e partilha eram tudo o que o sujeito tinha para esperar.

7. Confissão
Esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama
sinto muita pena de
minha mulher
ela vai ver este
corpo
rijo e
branco
vai sacudi-lo talvez
sacudi-lo de novo:
hank!
e hank não vai responder
não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.
no entanto
eu quero que ela
saiba
que dormir todas as noites
a seu lado
e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas
e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora ser ditas:
eu te
amo.

(Tradução: Jorge Wanderley)

Como alguém que se confessa momentos antes de morrer, o sujeito poético consegue finalmente expressar suas angústias e emoções. Sentindo que a morte vai chegar em breve, como um "gato pulando na cama", está esperando por ela, tranquilo e conformado.

Sua maior preocupação no final da vida é com a mulher, que vai sofrer quando encontrar o seu corpo e ficar viúva. Sentindo que não tem mais nada a perder, que não precisa mais guardar segredos, declara o seu amor, reconhecendo que as coisas triviais que fizeram juntos foram o melhor que viveu.

Agora, no final da vida, escreve abertamente aquilo que sempre teve "medo de dizer" e de sentir: "eu te amo".

8. Poema nos meus 43 anos
terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida—
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter um quarto.
…de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores , médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi…
e você se vira
para o lado pra pegar o sol
nas costas e não
direto nos olhos.

(Tradução: Jorge Wanderley)

A postura derrotista do sujeito fica evidente desde o começo do poema. Mesmo tendo apenas 43 anos, não age como se tivesse muita vida pela frente. Pelo contrário, compara o seu quarto a um túmulo, como se já estivesse morto, "sem cigarros nem bebida".

Isolado do resto do mundo, reflete acerca de si mesmo, concluindo que está velho e descuidado. Ainda assim, está "feliz por ter um quarto", mantendo o seu espírito de gratidão perante o que tem, a sua capacidade de se satisfazer com pouco.

Fora do seu espaço, existe um contraste direto com a sociedade, representada como produtiva e funcional. Todos estão na rua, cumprindo com as suas obrigações, "ganhando dinheiro".

Já o sujeito parece ter desistido de lutar, demonstra passividade e indiferença, virando as costas para os raios de sol que entram pela janela.

9. Encurralado
bem, eles diziam que tudo terminaria
assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca
da palavra

ouvindo os passos
na escuridão, volto-me
para olhar atrás de mim…

ainda não, velho cão…
logo em breve.

agora
eles se sentam falando sobre
mim: “sim, acontece, ele já
era… é
triste…”

“ele nunca teve muito, não é
mesmo?”

“bem, não, mas agora…”

agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que há muito já não
frequento.

agora
bebo sozinho
junto a essa máquina que mal
funciona

enquanto as sombras assumem
formas

combato retirando-me
lentamente

agora
minha antiga promessa
definha
definha

agora
acendendo novos cigarros
servido mais
bebidas

tem sido um belo
combate

ainda
é.

(Tradução: Pedro Gonzaga)

Em "Encurralado", o poeta parece abordar o seu estado de espírito atual e a fase da vida na qual se encontra no momento em que escreve. Em declínio, sabe que os outros esperavam a sua ruína, adivinhavam e comentavam que "tudo terminaria assim".

A profecia está se cumprindo: está sozinho, velho, sua carreira está parada e o talento parece perdido. Paranoico, imagina aquilo que estarão dizendo sobre ele, pensa naqueles que celebram a sua "derrocada".

Assim, deixou de frequentar os bares e as tabernas, bebe sozinho com a sua máquina de escrever, enquanto a promessa de seu talento "definha" diariamente.

Encara a vida como "um belo combate" e assume que continua lutando. Apesar de se sentir "encurralado", o sujeito poético faz aquilo que está ao seu alcance para se proteger das bocas do mundo.

Aceitando o exílio como único caminho que resta, o escritor se afasta das luzes da ribalta: "combato retirando-me".

10. Outra cama
outra cama
outra mulher

mais cortinas
outro banheiro
outra cozinha

outros olhos
outro cabelo
outros
pés e dedos.

todos à procura.
a busca eterna.

você fica na cama
ela se veste para o trabalho
e você se pergunta o que aconteceu
à última
e à outra antes dela…
é tudo tão confortável —
esse fazer amor
esse dormir juntos
a suave delicadeza…

após ela sair você se levanta e usa
o banheiro dela,
é tudo tão intimidante e estranho.
você retorna para a cama e
dorme mais uma hora.

quando você vai embora é com tristeza
mas você a verá novamente
quer funcione, quer não.

você dirige até a praia e fica sentado
em seu carro. é meio-dia.

— outra cama, outras orelhas, outros
brincos, outras bocas, outros chinelos, outros
vestidos
cores, portas, números de telefone.

você foi, certa vez, suficientemente forte para viver sozinho.
para um homem beirando os sessenta você deveria ser mais
sensato.

você dá a partida no carro e engata a primeira,
pensando, vou telefonar para janie logo que chegar,
não a vejo desde sexta-feira.

(Tradução: Pedro Gonzaga)

Neste poema, o eu lírico reflete acerca dos seus movimentos cíclicos, repetitivos, em busca de companhia e sexo. Enumera camas e mulheres, objetos domésticos e partes de corpos com os quais se vai cruzando ao longo do caminho.

Aquilo que o motiva e também move as suas companheiras é a "busca eterna": estão "todos à procura" de afeto e amor. Essa intimidade provisória é confortável, mas logo regressam à mesma ânsia, sentem o vazio de sempre.

Na manhã seguinte, depois do sexo, pensa nas companheiras antigas e no modo como acabaram desaparecendo da sua vida. Listando objetos e corpos mais uma vez, quase como se as imagens estivessem misturadas, o sujeito parece indicar que estas mulheres são como lugares onde está de passagem.

Depois de abandonar o local, fica refletindo no carro, pensando sobre a sua conduta e se censurando. Deixou de ser "suficientemente forte para viver sozinho", depende da atenção alheia para se sentir melhor.

Com quase sessenta anos, considera que "deveria ser mais sensato" mas mantem os comportamentos da juventude. Quando volta a dirigir, segue o seu caminho como se nada tivesse acontecido, pensando em Janie, a namorada que não vê há alguns dias.

11. Quatro e meia da manhã
os barulhos do mundo
com passarinhos vermelhos,
são quatro e meia da
manhã,
são sempre

quatro e meia da manhã,
e eu escuto
meus amigos:
os lixeiros
e os ladrões
e gatos sonhando com
minhocas,
e minhocas sonhando
os ossos
do meu amor,
e eu não posso dormir
e logo vai amanhecer,
os trabalhadores vão se levantar
e eles vão procurar por mim
no estaleiro e dirão:
“ele tá bêbado de novo”,
mas eu estarei adormecido,
finalmente, no meio das garrafas e
da luz do sol,
toda a escuridão acabada,
os braços abertos como
uma cruz,
os passarinhos vermelhos
voando,
voando,
rosas se abrindo no fumo e
como algo esfaqueado
e cicatrizando,
como 40 páginas de um romance ruim,
um sorriso bem na
minha cara de idiota.

(Tradução: Jorge Wanderley)

Nesta composição, intitulada "Quatro e meia da manhã", podemos sentir o espírito de vigília do sujeito poético, acordado enquanto o resto do mundo dorme. De madrugada, sem sono, escreve sobre a solidão extrema em que vive.

Confirma que está constantemente preso nessa sensação de distância e alienação perante o resto do mundo, afirmando que "são sempre quatro e meia da manhã". Os seus únicos companheiros são aqueles que também estão acordados naquela hora: os bichos, os lixeiros, os bandidos.

Adivinhando como será o dia seguinte, sabe que vai faltar ao trabalho no estaleiro e todos comentarão que "tá bêbado de novo". O consumo exagerado de álcool conduz a um maior isolamento e também à falta de capacidade para cumprir os seus deveres.

Só adormece depois do sol nascer, caído no chão entre as garrafas, com os braços estendidos como "uma cruz". A imagem parece recriar o sofrimento de Jesus, nos seus momentos finais. Tudo em volta é disfórico, triste, até mesmo as rosas são vistas como feridas.

Em meio a todo o caos, continua escrevendo, mesmo que seja "um romance ruim". Perante a ruína e a falta de controle, preserva o mesmo "sorriso idiota" que tantas vezes o segurou.

12. Uma palavrinha sobre os fazedores
de poemas rápidos e modernos
é muito fácil parecer moderno
enquanto se é o maior idiota jamais nascido;
eu sei; eu joguei fora um material horrível
mas não tão horrível como o que leio nas revistas;
eu tenho uma honestidade interior nascida de putas e hospitais
que não me deixará fingir que sou
uma coisa que não sou —
o que seria um duplo fracasso: o fracasso de uma pessoa
na poesia
e o fracasso de uma pessoa
na vida.
e quando você falha na poesia
você erra a vida,
e quando você falha na vida
você nunca nasceu
não importa o nome que sua mãe lhe deu.
as arquibancadas estão cheias de mortos
aclamando um vencedor
esperando um número que os carregue de volta
para a vida,
mas não é tão fácil assim —
tal como no poema
se você está morto
você podia também ser enterrado
e jogar fora a máquina de escrever
e parar de se enganar com
poemas cavalos mulheres a vida:
você está entulhando a saída — portanto saia logo
e desista das
poucas preciosas
páginas.

(Tradução: Jorge Wanderley)

Mais uma vez, Bukowski critica os poetas do seu tempo, falando diretamente com eles. Comentando o panorama literário da época, ressalva que "é muito fácil parecer moderno" quando se é um idiota, ou seja, que o absurdo está passando como inovação.

Em seguida, afirma que conservou a "honestidade interior" acerca da qualidade do seu trabalho. Por isso, descartou aquilo que sabia que era ruim, em vez de simular como seus contemporâneos. Vai mais longe: considera que fracassar na poesia é como fracassar na vida e que, para isso, é melhor nunca ter nascido.

Virando o seu olhar para o público e a crítica, afirma que as "arquibancadas estão cheias de mortos" esperando alguma coisa "que os traga de volta à vida". O sujeito acredita que se um poema não tem esse caráter redentor, não vale nada.

Assim, recomenda seus companheiros a desistir, "jogar fora máquina de escrever", afirmando que a poesia não deve servir como brincadeira, forma de distração ou escape da vida real.

13. Aquelas garotas que seguíamos até em casa
no ensino médio as duas garotas mais bonitas
eram as irmãs Irene e
Louise:
Irene era um ano mais velha, um pouco mais alta
mas era difícil escolher entre
as duas
elas não eram apenas bonitas mas
espantosamente lindas
tão lindas
que os garotos mantinham-se longe:
tinham medo de Irene
e Louise
que não eram nada inacessíveis;
até mesmo mais amigáveis que a maioria
mas
que pareciam se vestir um pouco
diferente das outras garotas:
sempre usavam salto alto,
blusinhas,
saias,
acessórios novos
a cada dia;
e
uma tarde
meu parceiro, Baldy, e eu
as seguimos da escola
até em casa;
você vê, nós éramos tipo os
marginais do pedaço
portanto isso já era algo
mais ou menos
esperado:
caminhando por uns dez ou doze metros
atrás delas
não dissemos nada
apenas as seguimos
observando
o seu gingar voluptuoso,
o balanço de suas
ancas.

nós gostamos tanto que
passamos a segui-las até em casa
todo
dia.

quando elas entravam
nós ficávamos lá fora na calçada
fumando e conversando

“um dia”, eu disse a Baldy,
“elas vão nos chamar para
entrar e vão transar
com a gente”

“você realmente acredita nisso?”

“claro”

agora
50 anos depois
eu posso te dizer
que elas nunca chamaram
– não importa todas as histórias
que nós contamos aos garotos;
sim, é um sonho
que te fazia seguir
na época e te faz seguir
agora.

(Tradução: Gabriel Resende Santos)

Com este poema, o eu lírico relembra os tempos da adolescência. Na escola, existiam duas irmãs que pareciam intimidar os garotos, já que não eram "acessíveis" ou "amigáveis".

O sujeito e o seu companheiro, que eram jovens problemáticos, os "marginais do pedaço", começaram a segui-las até casa. Depois que elas entravam, ficavam parados na porta, esperando. Afirma que acreditava que, um dia, elas iriam chamá-los e fazer sexo com eles.

No momento da escrita, "50 anos depois", sabe que isso nunca aconteceu. Ainda assim, continua achando necessário e importante acreditar nisso. Como"um sonho" que o incentivou no passado e que o "faz seguir agora", acreditar no impossível alimenta a sua esperança.

Sendo já um homem vivido, se apresenta como um eterno garoto, com a mesma forma de ver o mundo. Deste modo, segue movido pelo desejo carnal e contrariando a lógica e a vontade alheia, em nome da sua vontade.

14. Como ser um grande escritor
você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados;

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma derrota total
mesmo que a razão para esta derrota
pareça certa ou errada

um gosto precoce da morte não é necessariamente uma cosa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente
o tempo é a cruz de todos
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque

e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem?
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.

Depois de várias críticas à conduta de outros autores, esta composição parece ser uma espécie de "arte poética" de Bukowski, repleta de ironia. Nela, descreve aquilo que considera essencial para um homem das letras.

Começa por determinar que ser escritor deve ser mais que uma profissão: tem que ser um modo de vida, marginal e fora das convenções. Acredita que é necessário passar por muitas experiências para ter sobre o que escrever.

Defende também que, para fazer poemas de amor, é preciso ter muito sexo, de preferência com muitas pessoas diferentes. Vivendo de forma irregular, em horários estranhos, os escritores devem se ocupar com o álcool e o jogo.

Recomenda que evitem lugares tóxicos para a criação, como igrejas, bares e museus e que estejam preparados para uma "derrota total" a qualquer momento. Sublinha que precisam ser pacientes, resilientes, para suportar o "exílio" e a "traição" que os rodeiam.

Assim, acredita que para ser um grande escritor, é necessário que um indivíduo se separe, se afaste do resto do mundo e escreva sozinho no quarto enquanto os outros passam na rua.

Quando escrever na máquina, é preciso que "bata forte", que trate a poesia como um "combate de pesos pesados". Deste modo, determina que para escrever tem que haver força, energia, agressividade. Como "o touro" que se move por instinto, respondendo aos ataques, o escritor deve escrever com fúria, reagindo ao mundo.

Finalmente, presta homenagem aos "velhos cães", autores como Hemingway e Dostoiévski, que o influenciaram profundamente. Usa os seus exemplos para mostrar que os grandes gênios também terminaram loucos, solitários e pobres, por amor à literatura.

15. O Estouro
demais
tão pouco

tão gordo
tão magro
ou ninguém.

risos ou
lágrimas

odiosos
amantes

estranhos com faces como
cabeças de
tachinhas

exércitos correndo através
de ruas de sangue
brandindo garrafas de vinho
baionetando e fodendo
virgens.

ou um velho num quarto barato
com uma fotografia de M. Monroe.

há tamanha solidão no mundo
que você pode vê-la no movimento lento dos
braços de um relógio.

pessoas tão cansadas
mutiladas
tanto pelo amor como pelo desamor.

as pessoas simplesmente não são boas umas com as outras
cara a cara.

os ricos não são bons para os ricos
os pobres não são bons para os pobres.

estamos com medo.

nosso sistema educacional nos diz que
podemos ser todos
grandes vencedores.

eles não nos contaram
a respeito das misérias
ou dos suicídios.

ou do terror de uma pessoa
sofrendo sozinha
num lugar qualquer

intocada
incomunicável

regando uma planta.

as pessoas não são boas umas com as outras.
as pessoas não são boas umas com as outras.
as pessoas não são boas umas com as outras.

suponho que nunca serão.
não peço para que sejam.

mas às vezes eu penso sobre
isso.

as contas dos rosários balançarão
as nuvens nublarão
e o assassino degolará a criança
como se desse uma mordida numa casquinha de sorvete.

demais
tão pouco

tão gordo
tão magro
ou ninguém

mais odiosos que amantes.

as pessoas não são boas umas com as outras.
talvez se elas fossem
nossas mortes não seriam tão tristes.

enquanto isso eu olho para as jovens garotas
talos
flores do acaso.

tem que haver um caminho.

com certeza deve haver um caminho sobre o qual ainda
não pensamos.

quem colocou este cérebro dentro de mim?

ele chora
ele demanda
ele diz que há uma chance.

ele não dirá
“não”.

Neste poema, o sujeito comenta a sociedade de contrastes, de identidades em contacto e confronto na qual está inserido. A complexidade das relações humanas transforma os indivíduos em "odiosos amantes" e os grupos de pessoas pelas ruas parecem "exércitos" carregando garrafas de vinho.

No meio desse cenário de guerra quotidiana, surge a imagem de um homem velho, num quarto pobre, olhando a foto uma foto de Marilyn Monroe. A passagem parece simbolizar o futuro de uma humanidade desconectada de si mesma, irremediavelmente abandonada e esquecida.

Percebendo a enorme solidão do mundo a cada segundo que passa, conclui que todas as pessoas estão cansadas, "mutiladas" tanto pelo amor como pela perda. Por isso, não se tratam bem, "não são boas umas com as outras".

Tentando apontar as razões pelas quais isso acontece, conclui que "estamos com medo", já que crescemos achando que seríamos todos vencedores. De repente, percebemos que podemos sofrer, viver na miséria, e não ter ninguém a quem comunicar isso.

Resignado, sabe que as pessoas "nunca serão" melhores e afirma que já não espera que elas mudem. No entanto, se conseguissem fazê-lo, as "mortes não seriam tão tristes".

Quando lembra a hipótese de um assassino matar uma criança como se mordesse um sorvete, percebemos que não acredita em nenhuma salvação possível. Está convencido de que nos destruiremos uns aos outros, através da nossa ânsia e maldade.

Alguns versos depois, no entanto, a ideia parece se dissipar na sua mente. Quando vê passar algumas garotas bonitas, teima que "tem que haver um caminho", alguma solução para a decadência humana.

Frustrado consigo mesmo, e com a sua esperança teimosa, lamenta o seu cérebro que questiona, insiste, "chora", "demanda" e se recusa a desistir, apesar de tudo.

Sobre Charles Bukowski
Henry Charles Bukowski (16 de agosto de 1920 - 9 de março de 1994) nasceu na Alemanha e se mudou para os Estados Unidos da América, com os pais, aos três anos de idade. Sua infância e juventude nos subúrbios de Los Angeles foram marcadas pela presença de um pai autoritário e abusivo, a pobreza e a exclusão.

Autor de romances, poemas e roteiros de cinema, Bukowski escrevia sobre o mundo que conhecia, imprimindo um caráter autobiográfico evidente na sua produção literária.

Célebre pelo seu realismo cru e linguagem coloquial, a obra do escritor é atravessada por referências ao trabalho físico pesado, vida boêmia, aventuras sexuais, consumo de álcool.

Enquanto homem da classe proletária, foi sinônimo de representatividade para uma parte da sociedade norte-americana, que se relacionava e se identificava com o autor. Por outro lado, enquanto escritor de sucesso, tecia largas críticas aos seus companheiros de profissão, ao meio editorial e até ao público. O seu tom inflamado, de provocação constante, valeu o rótulo de "escritor maldito".

Biografia quase completa






Escritor, locador, vendedor de livros, protético dentário pela SPDERJ, consultor e marketing na Editora Becalete e entusiasta pelas Artes com uma tela no acervo permanente do Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC/BA)

Autor de sete livros solo em papel, um em e-book e coautor em mais de 130 Antologias poéticas

Livros:
• Poeteideser de 2009 (edição do autor)
• O e-book Imaginação Poética 2010 (Beco dos Poetas)
• A trilogia poética Fulano da Silva, Sicrano Barbosa e Beltrano dos Santos de 2014
• Puro Osso – duzentos escritos de paixão (março de 2015)
• Gaveta de Cima – versos seletos, patrocinado pela Editora Darda (Setembro de 2017)
• Absolvido pela Loucura; Absorvido pela Arte
(Janeiro de 2019)

• O livro de duetos: A Luz e o Diamante (Junho 2015)
• O livro em trio: ABC Tríade Poética (Novembro de 2015)

Amigos das Letras:
• Membro vitalício da Academia de Artes, Ciências e Letras de Iguaba (RJ) cadeira N° 95
• Membro vitalício da Academia Virtual de Letras, Artes e Cultura da Embaixada da Poesia (RJ)
• Membro vitalício e cofundador da Academia Internacional da União Cultural (RJ) cadeira N° 63
• Membro correspondente da ALB seccionais Bahia, São Paulo (Araraquara), da Academia de Letras de Goiás (ALG) e do Núcleo de Letras e Artes de Lisboa (PT)
• Membro da Academia Internacional De Artes, Letras e Ciências – ALPAS 21 - Patrono: Condorcet Aranha

Trupe Poética:
• Academia Virtual de Escritores Clandestinos
• Elo Escritor da Elos Literários
• Movimento Nacional Elos Literários
• Poste Poesia
• Bar do Escritor
• Pé de Poesia
• Rio Capital da Poesia
• Beco dos Poetas
• Poemas à Flor da Pele
• Tribuna Escrita
• Jornal Delfos/CE
• Colaborador no Portal Cronópios 2015
• Projeto Meu Poemas do Beco dos Poetas

Antologias Virtuais Permanentes:
• Portal CEN (Cá Estamos Nós - Brasil/Portugal)
• Logos do Portal Fénix (Brasil/Portugal)
• Revista eisFluências (Brasil/Portugal)
• Jornal Correio da Palavra (ALPAS 21)

Concursos, Projetos e Afins:
• Menção Honrosa do 2° Concurso Literário Pague Menos, de nível nacional. Ficou entre os 100 primeiros e está no livro “Brava Gente Brasileira”.
• Menção Honrosa do 4° Concurso Literário Pague Menos, de nível nacional. Ficou entre os 100 primeiros e está no livro “Amor do Tamanho do Brasil”.
• Menção Honrosa do 5° Concurso Literário Pague Menos, de nível nacional. Ficou entre os 100 primeiros e está no livro “Quem acredita cresce”.
• Menção Honrosa no I Prêmio Literário Mar de Letras, com poetas de Moçambique, Portugal e Brasil, ficou entre os 46 primeiros e está no livro “Controversos” - E. Sapere
• classificado no Concurso Novos Poetas com poema selecionado para o livro Poetize 2014 (Concurso Nacional Novos Poetas)
• 3° Lugar no Concurso Literário “Confrades do Verso”.
• indicado e outorgado com o título de "Participação Especial" na Antologia O Melhor de Poesias Encantadas/Salvador (BA).
• indicado e outorgado com o título de "Talento Poético 2015" com duas obras selecionadas para a Antologia As Melhores Poesias em Língua Portuguesa (SP).
• indicado e outorgado com o título de Talento Poético 2016 e 2017 pela Editora Becalete
• indicado e outorgado com o título de "Destaque Especial 2015” na Antologia O Melhor de Poesias Encantadas VIII
• Revisor, jurado e coautor dos tomos IX e X do projeto Poesias Encantadas
• Teve poemas selecionados e participou da Coletânea de Poesias "Confissões".
• Dois poemas selecionados e participou da Antologia Pablo Neruda e convidados (Lançada em ago./14 no Chile, na 23a Bienal (SP) e em out/14 no Museu do Oriente em Lisboa) - pela Literarte

André Anlub por Ele mesmo: Eu moro em mim, mas costumo fugir de casa; totalmente anárquico nas minhas lucidezes e pragmático nas loucuras, tento quebrar o gelo e gaseificar o fogo; não me vendo ao Sistema, não aceito ser trem e voo; tenho a parcimônia de quem cultiva passiflora e a doce monotonia de quem transpira melatonina; minha candura cascuda e otimista persistiu e venceu uma possível misantropia metediça e movediça; otimista sem utopia, pessimista sem depressão. Me considero um entusiasta pela vida, um quase “poète maudit” e um quase “bon vivant”.

Influências – atual: Neruda, Manoel de Barros, Sylvia Plath, Dostoiévski, China Miéville, Emily Dickinson, Žižek, Ana Cruz Cesar, Drummond
Hobbies: artes plásticas, gastronomia, fotografia, cavalos, escrita, leitura, música e boxe.
Influências – raiz: Secos e Molhados, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Mutantes, Jorge Amado, Neil Gaiman, gibis, Luiz Melodia entre outros.
Tem paixão pelo Rock, MPB e Samba, Blues e Jazz, café e a escrita. Acredita e carrega algumas verdades corriqueiras como amor, caráter, filosofia, poesia, música e fé.