17 de outubro de 2018

Das Loucuras (entrar em ação pode ser entrar pelo cano)


 

Das Loucuras (entrar em ação pode ser entrar pelo cano)

Ele é tatu e está tudo errado nessa dedução.
Pé no chão, pata no chão, barriga no chão.
Ele é rato ou pode ser cobra,
Vamos cobrar essa resposta.

E agora se faz o que? 
Mostrar o crachá, pegar o acarajé e caprichar no dendê.
A temperatura caiu,
Mas o corpo nunca esteve tão quente nesse instante.
E amanhã como vai ser?
A lâmina da faca entre os dentes
Estará ainda mais gélida, afiada e lancinante.

Ele quer guarida,
Se reencarnasse iria querer novamente guarida...
Sonhos, projetos, orações são tudo em vão.

Tem a noção de que precisa de segurança externa,
Não anda com as próprias pernas,
Mas bebe e comete seus pecados com as próprias mãos.

Quer disfarce para usufruir da distração;
Não consegue, então chegam suas nuvens pesadas.
Guarda-chuvas na mão e a estrada de barro inundada...
Se proteger da chuva não é nada,
E novamente ele se deixa na mão.

Foi montado o funeral,
Ele já pode aparecer.
Cava seus buracos, busca suas saídas,
Trabalha seus ensaios e divulga suas rotinas...
Se expondo, se impondo, se cobrando
De uma forma que ninguém imagina.

A vida de dia lhe sorri – timidamente,
A noite ela se vinga, o faz de vítima.

Dizem que nem tudo acaba em pizza,
Talvez não seja somente lá e aqui...
Nem tudo é água ou daiquiri.

André Anlub®
(17/10/18)

16 de outubro de 2018

Um pouco de Vinícius de Moraes


Soneto do Corifeu
(da peça Orfeu da Conceição)

São demais os perigos desta vida
Pra quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer de tão perfeita

Uma mulher que é como a própria lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua

( Vinícius de Moraes )

Soneto da Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

( Vinícius de Moraes )

Soneto a Quatro Mãos

Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.

( Vinícius de Moraes e Paulo Mendes Campos )

*

Soneto do Maior Amor

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

( Vinícius de Moraes )

*

Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

( Vinícius de Moraes )

*

A Mulher que Passa

Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

( Vinícius de Moraes )

*

Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

( Vinícius de Moraes )

*

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

( Vinícius de Moraes )

*

A Hora Íntima

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: – Nunca fez mal…
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: – Rei morto, rei posto…
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: – Foi um doido amigo…
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: – Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: – Não há de ser nada…
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

( Vinícius de Moraes )

*
Outros Temas em Poemas de Vinícius:

Berimbau e Consolação - vídeo de show com Vinícius
Marcha de Quarta-Feira de Cinzas - com vídeo
Mensagem à poesia
Poema de Natal - com vídeo
Soneto de Aniversário
A Rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada

( Vinícius de Moraes )

O Rio

Uma gota de chuva
A mais, e o ventre grávido
Estremeceu, da terra.
Através de antigos
Sedimentos, rochas
Ignoradas, ouro
Carvão, ferro e mármore
Um fio cristalino
Distante milênios
Partiu fragilmente
Sequioso de espaço
Em busca de luz.

Um rio nasceu.

( Vinícius de Moraes )

*

Poema Enjoadinho

Filhos… Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete…
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los…
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!

( Vinícius de Moraes )

*

São Francisco

Lá vai São Francisco
Pelo caminho
De pé descalço
Tão pobrezinho
Dormindo à noite
Junto ao moinho
Bebendo a água
Do ribeirinho.

Lá vai São Francisco
De pé no chão
Levando nada
No seu surrão
Dizendo ao vento
Bom-dia, amigo
Dizendo ao fogo
Saúde, irmão.

Lá vai São Francisco
Pelo caminho
Levando ao colo
Jesuscristinho
Fazendo festa
No menininho
Contando histórias
Pros passarinhos.

( Vinícius de Moraes ) (poema infantil)

*

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste…

( Vinícius de Moraes )

*

A Impossível Partida

Como poder-te penetrar, ó noite erma, se os meus olhos cegaram nas luzes da cidade
E se o sangue que corre no meu corpo ficou branco ao contato da carne indesejada?…
Como poder viver misteriosamente os teus recônditos sentidos
Se os meus sentidos foram murchando como vão murchando as rosas colhidas
E se a minha inquietação iria temer a tua eloqüência silenciosa?…
Eu sonhei!… Sonhei cidades desaparecidas nos desertos pálidos
Sonhei civilizações mortas na contemplação imutável
Os rios mortos… as sombras mortas… as vozes mortas…
…o homem parado, envolto em branco sobre a areia branca e a quietude na face…
Como poder rasgar, noite, o véu constelado do teu mistério
Se a minha tez é branca e se no meu coração não mais existem os nervos calmos
Que sustentavam os braços dos Incas horas inteiras no êxtase da tua visão?…
Eu sonhei!… Sonhei mundos passando como pássaros
Luzes voando ao vento como folhas
Nuvens como vagas afogando luas adolescentes…
Sons… o último suspiro dos condenados vagando em busca de vida…
O frêmito lúgubre dos corpos penados girando no espaço…
Imagens… a cor verde dos perfumes se desmanchando na essência das coisas…
As virgens das auroras dançando suspensas nas gazes da bruma
Soprando de manso na boca vermelha dos astros…
Como poder abrir no teu seio, oh noite erma, o pórtico sagrado do Grande Templo
Se eu estou preso ao passado como a criança ao colo materno
E se é preciso adormecer na lembrança boa antes que as mãos desconhecidas me arrebatem?…

( Vinícius de Moraes )

O livro que fez meu cavalo livre


O livro que fez meu cavalo livre
(Parte I, II, III)

A priori... tudo está a contento, e sobrevivi!
Lembro-me da vastidão do picadeiro
O cavalo da loucura em galope louco.
Nunca se deixa de fazer pouco
Quando tudo se tem... é você em primeiro!

Alucinações, parábolas, cogumelos
Nos desenhos moravam duendes;
Para as crianças, eram casas...
Salgados caramelos.

Cavalguei sobre o campo de tulipas
Amassadas pelas pegadas do cavalo.
E na queimada da mata...
Pelo ralo foram-se alguns anos
Pelo corpo farejei meus desenganos.

Chorei ao deparar-me com o tempo perdido
E no dito e não dito que ignorei.
Com a felicidade tinha perdido o compromisso
E no chumaço do chá de sumiço, 
Hoje me achei.

Enfim, estacionado o cavalo.
Dei banho, água e feno
Abri o cercado do terreno
E o deixei livre ao regalo.

Se todas as tulipas fossem negras

Meu cavalo nesse momento é livre
Porém, ainda com alguns fantasmas.
Também há as estradas íngremes
Que estendem um tapete vermelho para o nada.

Agora, as tulipas estavam inteiras,
Não mais pisadas pelas patas.
Brilhantes tulipas, com cores vivas
E força para enfrentar a tempestade.

O amanhã próximo de letras e tintas
A sina que mudaria o caminhar.
Nas mãos, preparados para tocar a alma...
Os livros de Emily Dickinson e Sylvia Plath.

E as tulipas se tornaram negras
Ao conhecerem sua história e sua dor.
Regadas e afogadas pelas flores coloridas
Que também afogaram junto seu rancor.

E meu cavalo livre...

Hoje tenho novo cavalo
Ele está perto, mas não temos contato.
Ele me inspira, traz força e medo
Me respeita e impõe respeito.

O coração se abre, vejo meu próprio inventário.
Martírio empoeirado de um achaque guardado
E o amor incrustado de um todo imaginário.

Hoje a vida é um constante cenário
Como o mar que me conhece
Até mais do que eu mesmo.

A moradia na emoção 
É o botão de liga/desliga da alma incendiária.

Pago a diária desse hotel
Com a locação do meu bordel
Com o papel, meus rabiscos
E a loucura ponderada.

Os cavalos, as tulipas e uma vida

Meu cavalo relinchou por comida
Quer algo esquecido e sem fim.
Quer banquete farto e antigo
Quer minhas loucas iguarias
Pois já está farto de capim.

Meu cavalo veio à minha porta
Nessa torta manhã de domingo.
Ouvi com delicadeza sua clemência
E chorei feito menino.

Mais uma vez só vejo as tulipas negras
E o verão mergulhado no inverno.
O inferno com suas portas abertas
Badalou os sinos
E colocou o capacho de “bem-vindo”.

Mas, minha gente amiga...
Beijo a vida vadia.
Deem-me as mãos, me deem guarida
Não quero ser julgado, é covardia.

Como réu confesso, meu cavalo se vai
Some ao longe, pelo canto da estrada.
Sua estada é sempre trágica
E, como mágica, ressuscita as tulipas.

André Anlub®

14 de outubro de 2018

Das Loucuras (torre, bispo, cavalo, pião e jóquei)


Das Loucuras (torre, bispo, cavalo, pião e jóquei)

Entre um espaço e outro havia um vácuo;
As horas eram parcas e não contavam dinheiro.
Na feira as frutas com cara de ontem;
Na árvore os frutos permaneciam inteiros.

Um elefante pisa pesado e anda na savana pianinho...
Ao som de um som, de um jazz de Jim Hall.
Na curva do vento o carvalho balança, mas não cai o tal ninho...
São Jorge e sua lança que carece de fio.

Tudo posto para fora na chegada do vendaval.

No rio, no mar, no açude os peixes mais nutridos;
“Rolha de poço” grita forte o menino.
O cachorro late para a lua, abana o rabo faminto...
O coveiro se assusta com o roedor e seu ruído.

Tudo de volta para dentro numa gula infernal.

O espaço escasso faz pouco caso para o infinito;
Um sorriso de lá e o olhar de deboche.
Um quer ibope, o outro quer fazer bonito...
Saem os dois feridos aos olhos de um escroque.

Tudo para fora e para dentro como uma cópula natural.

André Anlub®
(14/10/18)


Inocente e réu




Inocente e réu

Onde andei, 
por caminhos difíceis, 
sombrios e íngremes...
descobri a esperança, 
o renovar de cada andança, 
caridades e crimes.

Passeando e observando no caminho, 
pássaros que vão e vem com gravetos no bico
lembro-me de outras épocas, ninhos de cantos e gemidos...

Uma vida de baixos e apogeus.

Sinto saudade!  
Sinto o perdão que outrora não conhecia.
Aprendi, durante esses anos vividos, 
a amar e saciar a quem me sacia...
doar-me mais e cobrar menos, 
a ser moderno amando o eterno, 
ser bom aprendiz.

Aprendi a controlar minha raiva, 
ter paciência, 
pisando em ovos passando feliz.

Nesse caminho, 
a luz de fogos, 
declamo mansinho os versos teus:
o vento mexe as margaridas, 
campos de trigo, 
a minha vida, baú de amigos.

Em outra vida eu fui um rei, 
fui um príncipe, 
bobo da corte ou um plebeu.

Quem sabe hoje eu te visito 
e faço um bolo aos sons antigos...
Só tu e eu.

Na paisagem de tua janela, 
de frente ao lago, 
o pôr do sol;
no crepúsculo, 
ouvindo os sapos, 
os violinos, 
clave de sol.

sinto o toque divino, 
no verde e no azul piscina do céu...
vejo que ainda sou menino, 
sou desde pequeno, 
inocente e réu.

André Anlub

Cheers


Cheers

O berro, o bar e a brisa
O copo brusco que vai ao chão e não quebra
Um velho bilhar... E quando fico em sinuca...
É o velho frio na nuca.

O jukebox é disputado
Também o jogo de dardo...
Que tem uma foto amarelada,
do Sarney, toda furada.

Esse bar não abre nem fecha
É flecha sempre lançada
Pois o coração do poeta
Não seca, não se afoga... Não nada!

Absinto é homeopático
Cerveja cria uma grande barriga
O garçom pra lá de simpático...
Sempre serve uma dose extra
Com uma porção de lingüiça.

Temos que chegar diariamente
Com uma pequena prosa
Que fale de espinho ou da rosa
De um culpado ou inocente.

Com ela batemos o ponto
Sairemos só muito tonto
Chamando urubu de meu louro...
Deixando a freguesia contente.

Garçom, um Southern Comfort...
E um copo cheio de gelo
Aproveitando minha falta de zelo
Com meu fígado guerreiro.

Hoje trouxe do meu terreno
Colhi praticamente agora
Gostoso é feito na hora
Deixa o ébrio ameno.

O aipim não é brincadeira...
Tem mais alcunha que o poeta
Alguns conhecem com outro nome
Pode ser mandioca ou macaxeira.

Frito desce redondo
Cozido desce oval
Com uma cachaça de rolha
Entramos em um vendaval.

Hoje trouxe esse conto
Amanhã venho com outro
Vou para uma taberna
Uma prostituta me espera.

André Anlub

13 de outubro de 2018

Releituras de mim


2013, uns 20 e poucos quilos mais "cheio"!

(Releituras de mim)

O verde vivente evidente,
Fez nuance nos raios dourados do sol,
Que surgiam e sumiam
Ao bailar de folhas,
No cair de sementes,
Da jabuticabeira.

Relembro promessas, vi-me em outras épocas, remetido ao passado - meu caminhar, caminhado. Esperei te achar, por detrás dos arbustos, arbustos de pele no cheiro de capim limão. No núcleo de cada ideia há uma pequena mas poderosa explosão. Fico por aqui calado, mas digo por dentro: até amanhã. Seguro a mão do meu guia, sinal de aceitação. O que procuro? O que me falta? O que me farta? Em que me incluo?

São animais indiscretos e contemplativos
Na mansidão imaginária e cada vez mais.
No hipotético paraíso na zona de conforto
Vai chegando, vai vivendo outros desafios...
Pés que não cansam de andar fora dos trilhos.

São animais de cegos charmes
E quase sempre atrapalhados.
Na obsessão que alguém os agarre,
Salvando-os do fortuito afogamento,
Dos salgados e amargos mares.

André Anlub®

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Escritor, autor de seis livros em papel: Poeteideser de 2009 (edição do autor), em 2010 o e-book Imaginação Poética, em 2014 a trilogia...