16 de junho de 2022

Iluminuras (5/1/10)

 



Iluminuras (5/1/10)


Não há ranhuras na efígie

Talhada em madeira de lei 

Segue no caminho dos povos

Edificam as divindades de agora

Com os idolatrados de outrora.


Na memória da existência

Seu rosto, o mais belo e mais alto

Olhos em sobressaltos

Olham-me com o penar de mãe.


Abro célere uma leitura antiga

Centenas de iluminuras ambíguas

Todas recordam seu corpo

Letras do seu meigo nome.


Epístolas que permutam

No paladar da sabedoria

Tão antiga como a ironia

De amar sem lhe conhecer.


André Anlub

8 de junho de 2022

 




Imaginação mestiça


 









Branca paz, vermelho sangue e azul turquesa

Sobre a mesa fria uma marmita e um finado

Uma carta em uma trincheira e o soldado.


Imaginação mestiça


A imaginação dentro de seu raro aço,

Desembaraço das peças da adivinha,

Das vinhas – o vinho e o ‘barato’ – num corte

Espadas, esporas, gumes de facas

Os escárnios dos abstêmios, todavia...


Faz louca e bem-vinda toda a vida,

Sua moradia em peles ambíguas:

Branco no brando do plácido coelho;

Ao réu e aos ratos é cingido na cor cinza...

E impura e sinistra e baldia.


Bombas ao baixo, mãos ao alto, bom dia

Violência chorando na esquina chuvosa...

O touché na esgrima fez pontada na costela;

Eu e ela, vale a rima do nosso arrimo, nebulosa,

Sutileza e sangria e doce e vinho – melancia.


De aprontado feitiço nascem como hortaliças,

Nas ruas as nuas imagens em paragens insanas;

São fálicas e frígidas, finas piolas nada pulcras.

Tudo ao teor do amor e do terror da fantasia.


Esculpidos e arrazoados vemo-nos em vigília 

Ao renascerem belas múmias e inspirações extintas 

No horizonte o assombro de um alto monte 

Ao montante o tanto não vale a sombra no vale...

A imaginação eclode da sua armadura mestiça. 


André Anlub

6 de junho de 2022

Manhã de 6/4/16

 


Manhã de 6/4/16

Obstinado pelo obscuro, fecho os olhos e tudo fica mais claro; Como a marca de ferro quente no lombo do boi, deixando a cicatriz do ‘V’ de vitória. Ouço um canto, e todo canto causa curiosidade; torna o verde mais verde, os pássaros não tem nem metem medo; fui e voltei, junto a eles, em lugares perdidos, terras de zés achados e zés ninguém. Exercitei as alegrias, aqueci as salvas de palmas, alegrei almas em fantasias... no cinema da vida tudo é replay, mas é sempre novo e mais deleitoso o rever. Há pessoas exibindo sorrisos (talvez sinceros; talvez de ocasião). E vai vento, é vento na venta, o ar mais puro, pulmão limpo, incenso de maça, oxigênio, alegrias, amigos, poesia... tudo para se dizer: vivendo. Voei por cima da angústia, sobre a rua Augusta focando no Caos; voei como nunca havia voado antes; voei em pêndulos retos e traços tortos; voei agora pelo Bairro Peixoto, em Copacabana. Nada mais que eu fale narraria com merecimento a emoção; talvez levantar as mãos ao alto e – num gesto ingênuo e sincero – pedir perdão. 

André Anlub


1 de junho de 2022

Se eu comprar um circo o anão cresce

 










A arte é muito além do coerente,

É avesso e infinito, 

É forma ou desforma; 

A arte não se envolve com opiniões

Sempre existirá de qualquer forma.


A cena da sina em cinco tempos


Parte I


Deixei um abraço pro lago Paranoá,

Fim de tarde dos mais belos,

E o sol batendo o ponto pra descansar.


Parte II


Se não fosse a paixão, simples,

Teria outro nome:

- Fez-se atração ao limite do suportável.

Mais uma vez grito! E o grito sai assim:

- Meio confuso, meio dominado.

É a saudade, é o deslumbre;

É o lume da liberdade...

São pontos, luzes da minha cidade;

Vejo o mar com imponência e atitude.


Olho pela janela do avião e concluo:

- Será uma enorme coincidência de também meu corpo físico estar nas nuvens?


Não há tempestade que me atinja;

Não há cor ou mancha alguma que me tinja.

Hoje - agora - amanhã...

Sou camaleão!


Parte III


Olhos cheios d’água,

É noite e as luzes refletem na minha íris.

Vejo minha terra, minha mãe

Desse filho adotivo, birrento,

Que amamentou em seu seio,

(ama de leite)

Banhou-se no seu mar

E no seu sol aqueceu-se

De um acaloro que vem de dentro

Expressivo – decisivo – poetar.


Parte IV


Agora é êxtase de lisonjeio e satisfação;

Pus a mão na arte, na autoridade de uma academia;

Animo de energia – passo a frente – mira ativa.


Fiquei maravilhado aos pés de Iguaba...

E não me gabo desse flerte;

Como diria Caê:

“Adoro ver-te...”.


Parte V


No retorno, e torno a teclar nessa tecla;

Abraço deuses, mestres e magos.

Ponho-me à mercê da alegria,

E a vida me fecha em afagos.

Novamente sobre outros lagos

E largo sorriso ecoando.

Saudade da casa e entornos,

Contornos de tempos mais calmos.


Saudade dos bons e maus que com o sol fazem a lua;

Saudade da música sua, e a língua dançante dos cães.

Quero a água gelada, as bocas recitando versos,

Novos escritos discretos e poças com estrelas nuas.


A nuvem negra se foi no horizonte,

Tempo que a fez merecer.

Meio termo, temor inteiro,

Do dilúvio que não irá acontecer.


Da sombra se faz um poeta

Da seta de mão/contramão.

Do sonho no rabo do cometa

Se meta, poeta hei de ser.


André Anlub®

29 de maio de 2022

Grande Maya Gabeira

 



Maya Gabeira surfa onda gigante em Portugal

Surfista brasileira é detentora do recorde feminino de maior onda surfada, com uma altura de 22,4 metros

Matéria CNN: CNNBrasil



28 de maio de 2022

Não me enfastio quando falo de amor













Não me enfastio quando falo de amor


Dizem que de nada vale uma luta se não for por amor

Mesmo que não seja de um modo direto ou/e visível

Por sobre barreiras, andando por cima das águas

Atravessando penhascos e aguentando a dor.


Elogiando e rasgando seda para o verdadeiro amor...


Intrínseco e salutar, precioso e impagável

O verdadeiro é quase sempre eterno

Encontrado em variadas esferas

Quando dividido é insuperável.


Andando na fina camada de gelo do lago congelado...


É frágil, isso é incontestável

Cristal fino, bebida rara em fina taça

É mágico, enfático, abracadabra

Cada respirar, cada passo.


Lutando contra o tempo da saudade e da distância...


Se um segundo é piscar dos olhos

Sozinho é uma eternidade

Aperta o peito e cai uma lágrima

Amor é aquém e além da realidade.


André Anlub

26 de maio de 2022

Frei Betto














Frei Betto

Meu pai lutou contra a ditadura de Vargas. Esteve preso e assinou o “Manifesto dos Mineiros”, estopim político que detonou o regime de terror implantado pelo caudilho.

Meu pai, em 1945, acreditou que nunca mais o Brasil seria governado por outra ditadura. A democracia havia recuperado fôlego.

Em 1962, troquei Belo Horizonte pelo Rio, disposto a me dedicar à política estudantil em âmbito nacional. Jânio Quadros havia sido eleito presidente da República em 1961 e renunciado oito meses depois. Houve breve período de instabilidade política. A Constituição, entretanto, prevaleceu, e João Goulart, vice de Jânio, tomou posse.

Como candidato, Jânio visitou Cuba em março de 1960 e, poucos dias antes de renunciar, condecorou Che Guevara com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, a principal comenda da República. Para os setores conservadores, era mais um sinal de que o país se deslocava da órbita dos EUA para a comunista. De fato, não eram os países socialistas que atraíam o governo de Jango. Era a coalizão dos Não Alinhados que congregava 115 países decididos a ficarem distantes das grandes potências.

Tal independência, contudo, foi encarada pela Casa Branca como alinhamento ao comunismo. Na polarização da Guerra Fria entre EUA e a União Soviética, Tio Sam não admitia neutralidade.

Na política interna, Jango apregoava o óbvio: promover reformas de base, como a agrária, tão necessárias ao Brasil ainda hoje. Movimentos sociais, como as Ligas Camponesas, davam respaldo às intenções do governo.

Diante das mobilizações de apoio à política reformista de Jango, a direita brasileira, monitorada pela CIA, como hoje comprovam documentos oficiais, desencadeou articulações para impedir que as estruturas anacrônicas do país, tão convenientes aos interesses dos EUA e à elite agroindustrial, fossem alteradas. O fantasma do comunismo ocupou as manchetes da mídia. Entidades foram fundadas para aglutinar as forças de direita, como o IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Havia cheiro de golpe no ar...

As forças progressistas, no entanto, não tiveram suficiente olfato para captá-lo. Acreditavam que as mobilizações populares, comandadas pela UNE (União Nacional dos Estudantes), a CGT (Comando Geral dos Trabalhadores) e os partidos progressistas e grupos de esquerda (PC, PCdoB, Ação Popular etc.) haveriam de conter qualquer aventura golpista.

Líderes da esquerda garantiam que Jango estava firmemente respaldado por um fiel “esquema militar”. Tinha em mãos o controle da situação. Embora as ruas do país fossem ocupadas pelas Marchas da Família com Deus pela Liberdade, encabeçadas por um sacerdote estadunidense remetido pela CIA ao Brasil, a democracia não sofria ameaça. Oito anos de ditadura de Vargas (1937-1945) haviam imunizado o país do vírus golpista.

O dilúvio desabou em 1º de abril de 1964. Sem disparar um único tiro, as Forças Armadas derrubaram o governo constitucionalmente eleito, rasgaram a Constituição e disseminaram o regime de terror que cassou políticos e lideranças sociais, prendeu, torturou, assassinou, fez desaparecer e/ou baniu do país militantes de movimentos populares, pastorais, sindicais e políticos. O regime de trevas durou 21 anos!

Hoje, o Brasil é governado por um cúmplice das milícias que ostensiva e repetidamente ameaça a democracia e promete sabotar as eleições presidenciais de outubro caso as urnas não lhe deem vitória. E, de novo, vozes se levantam em defesa da democracia e asseguram que ela está sólida. São vozes do Judiciário, do Legislativo, da grande mídia, e até de quem admite ter dado, em 2018, seu voto ao neofascista que ocupa o Planalto.

Enquanto Carolina, com seus olhos fundos, vê a banda passar e guarda tanta dor, a defesa da democracia se sustenta, até agora, em mera retórica. “Eu já lhe expliquei que não vai dar / seu pranto não vai nada ajudar”, pois não há mobilizações populares. Não há ações efetivas do Judiciário, do Legislativo e dos movimentos sociais para acuar o presidente nos demarcados limites da Constituição. O tempo passa na janela e só Carolina não vê. Ninguém sabe o que pensam as Forças Armadas, exceto que não se queixam do “cala boca” de tantas mordomias asseguradas pelo capitão, que lhes abriu o cofre, encastelou milhares de militares nas estruturas de governo e convoca, altissonante, a população a se armar e desconfiar do processo eleitoral.

Carolina vai continuar na janela e fazer de conta que não vê? Quem garante, hoje, que Lula será eleito e, se eleito, tomará posse?

Frágil não é a democracia brasileira, e sim a nossa capacidade de, como povo, transformar a nossa indignação em mobilização.

Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros. Livraria virtual: https://www.freibetto.org/

Assine e receba todos os artigos semanais e futuros livros do autor: mhgpal@gmail.com

Biografia quase completa






Escritor, locador, vendedor de livros, protético dentário pela SPDERJ, consultor e marketing na Editora Becalete e entusiasta pelas Artes com uma tela no acervo permanente do Museu de Arte Contemporânea da Bahia (MAC/BA)

Autor de sete livros solo em papel, um em e-book e coautor em mais de 130 Antologias poéticas

Livros:
• Poeteideser de 2009 (edição do autor)
• O e-book Imaginação Poética 2010 (Beco dos Poetas)
• A trilogia poética Fulano da Silva, Sicrano Barbosa e Beltrano dos Santos de 2014
• Puro Osso – duzentos escritos de paixão (março de 2015)
• Gaveta de Cima – versos seletos, patrocinado pela Editora Darda (Setembro de 2017)
• Absolvido pela Loucura; Absorvido pela Arte
(Janeiro de 2019)

• O livro de duetos: A Luz e o Diamante (Junho 2015)
• O livro em trio: ABC Tríade Poética (Novembro de 2015)

Amigos das Letras:
• Membro vitalício da Academia de Artes, Ciências e Letras de Iguaba (RJ) cadeira N° 95
• Membro vitalício da Academia Virtual de Letras, Artes e Cultura da Embaixada da Poesia (RJ)
• Membro vitalício e cofundador da Academia Internacional da União Cultural (RJ) cadeira N° 63
• Membro correspondente da ALB seccionais Bahia, São Paulo (Araraquara), da Academia de Letras de Goiás (ALG) e do Núcleo de Letras e Artes de Lisboa (PT)
• Membro da Academia Internacional De Artes, Letras e Ciências – ALPAS 21 - Patrono: Condorcet Aranha

Trupe Poética:
• Academia Virtual de Escritores Clandestinos
• Elo Escritor da Elos Literários
• Movimento Nacional Elos Literários
• Poste Poesia
• Bar do Escritor
• Pé de Poesia
• Rio Capital da Poesia
• Beco dos Poetas
• Poemas à Flor da Pele
• Tribuna Escrita
• Jornal Delfos/CE
• Colaborador no Portal Cronópios 2015
• Projeto Meu Poemas do Beco dos Poetas

Antologias Virtuais Permanentes:
• Portal CEN (Cá Estamos Nós - Brasil/Portugal)
• Logos do Portal Fénix (Brasil/Portugal)
• Revista eisFluências (Brasil/Portugal)
• Jornal Correio da Palavra (ALPAS 21)

Concursos, Projetos e Afins:
• Menção Honrosa do 2° Concurso Literário Pague Menos, de nível nacional. Ficou entre os 100 primeiros e está no livro “Brava Gente Brasileira”.
• Menção Honrosa do 4° Concurso Literário Pague Menos, de nível nacional. Ficou entre os 100 primeiros e está no livro “Amor do Tamanho do Brasil”.
• Menção Honrosa do 5° Concurso Literário Pague Menos, de nível nacional. Ficou entre os 100 primeiros e está no livro “Quem acredita cresce”.
• Menção Honrosa no I Prêmio Literário Mar de Letras, com poetas de Moçambique, Portugal e Brasil, ficou entre os 46 primeiros e está no livro “Controversos” - E. Sapere
• classificado no Concurso Novos Poetas com poema selecionado para o livro Poetize 2014 (Concurso Nacional Novos Poetas)
• 3° Lugar no Concurso Literário “Confrades do Verso”.
• indicado e outorgado com o título de "Participação Especial" na Antologia O Melhor de Poesias Encantadas/Salvador (BA).
• indicado e outorgado com o título de "Talento Poético 2015" com duas obras selecionadas para a Antologia As Melhores Poesias em Língua Portuguesa (SP).
• indicado e outorgado com o título de Talento Poético 2016 e 2017 pela Editora Becalete
• indicado e outorgado com o título de "Destaque Especial 2015” na Antologia O Melhor de Poesias Encantadas VIII
• Revisor, jurado e coautor dos tomos IX e X do projeto Poesias Encantadas
• Teve poemas selecionados e participou da Coletânea de Poesias "Confissões".
• Dois poemas selecionados e participou da Antologia Pablo Neruda e convidados (Lançada em ago./14 no Chile, na 23a Bienal (SP) e em out/14 no Museu do Oriente em Lisboa) - pela Literarte

André Anlub por Ele mesmo: Eu moro em mim, mas costumo fugir de casa; totalmente anárquico nas minhas lucidezes e pragmático nas loucuras, tento quebrar o gelo e gaseificar o fogo; não me vendo ao Sistema, não aceito ser trem e voo; tenho a parcimônia de quem cultiva passiflora e a doce monotonia de quem transpira melatonina; minha candura cascuda e otimista persistiu e venceu uma possível misantropia metediça e movediça; otimista sem utopia, pessimista sem depressão. Me considero um entusiasta pela vida, um quase “poète maudit” e um quase “bon vivant”.

Influências – atual: Neruda, Manoel de Barros, Sylvia Plath, Dostoiévski, China Miéville, Emily Dickinson, Žižek, Ana Cruz Cesar, Drummond
Hobbies: artes plásticas, gastronomia, fotografia, cavalos, escrita, leitura, música e boxe.
Influências – raiz: Secos e Molhados, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Mutantes, Jorge Amado, Neil Gaiman, gibis, Luiz Melodia entre outros.
Tem paixão pelo Rock, MPB e Samba, Blues e Jazz, café e a escrita. Acredita e carrega algumas verdades corriqueiras como amor, caráter, filosofia, poesia, música e fé.