17 de fevereiro de 2019

Dueto LVIII

A história por trás desta famosa foto:




Em 1990, a fotógrafa Mary Ellen Mark foi enviada à Carolina do Norte pela revista LIFE para cobrir uma escola para crianças problemáticas. Ellison (foto) foi uma daquelas crianças. "Ela é a minha favorita", disse Mark à revista britânica Vogue em 1993. "Ela era tão ruim que era maravilhosa, tinha uma boca muito vulgar, era brilhante." A menina de 9 anos na foto é Amanda Marie Ellison. Se você está se perguntando, ela ainda fuma e lembra bem da sessão de fotos “Nunca esqueci isso. Nunca na minha vida esqueci. ”Amanda começou a se mudar de casa em casa aos 11 anos de idade e desenvolveu um problema com drogas aos 16 anos. Desde então, ela já esteve na prisão várias vezes e continuou lutando contra seu vício.


Dueto  LVIII

Passaram-se décadas de escadas e escaladas, entupiram-se alguns canos, cabelos caíram, ossos furados, castelos ruíram.
No rosto do bibliotecário o vinco dos registros formava rios que desaguavam em oceanos de mágoa.
O que já passou por suas mãos e olhos são incontáveis joias raras, pedras preciosas, escritos, pequenos silêncios e enormes gritos de escritores de todo o globo.
Tudo dele, tudo nele. Sua vida é contar e recontar as pedras, encontrando ou deixando escapar as preciosidades.
Espalhou a semente da leitura: família, vizinhos e toda sua pequena cidade... mas não se sentia completo, não era pleno, era até mesmo infeliz ao extremo.
No extremo da angústia perguntava-se e a resposta era mais uma pergunta: O que é que eu estou fazendo aqui?
Saiu pelas ruas à procura da resposta; olhou pelas praças, bancos e ruelas e viu os amigos (eles e elas) lendo ou carregando livros; olhou pelas janelas baixas e viu mesas postas e ao lado as cristaleiras com livros guardados para o “após ceia”.
Pedras guardadas, livros guardados. Pedras nos olhos, livros nas estantes. Pedras nos sapatos, livros nas gavetas.
A impressão de dever cumprido veio junto com a de não dever nada; então, novamente, deságua em lágrimas, pois o livro que mais quis ler, ele não havia escrito.
No livro que ele não havia escrito, a resposta para sua pergunta não era uma nova pergunta e ele finalmente não dormiria mais embaixo da mesa.

Rogério Camargo e André Anlub

16 de fevereiro de 2019

Apoteose poética/divisor de águas.


Apoteose poética/divisor de águas.

Na sombra dos medos nasceu o pé de luz (meu pé de cabra arrombador de Eus). E o pé cresceu – se ergueu, ficou forte – criou porte, deu frutos, assim... Amadureceu a chave do mundo – a chave de tudo e futuro eternizado: chavão. Janelas se abrem; se abrem cortinas e vem o beijo do sol e vem penetrando o clarão. Mistérios nas nuvens, e obtusos e abstrusos e absortos. Abriram-se dentro de um aberto brilho no imaginativo castelo os portões. As notícias melhoraram com o céu lavado, o infinito ficou mais perto; ouço aquela menina me chamar para um drink no escuro, ou no inferno, “a la Tarantino”. Visões de queijos, vinhos – paladares de bocas e intestinos, tudo faz sentido de alguma forma. Há um gigante ou há um anão entre o rei e o umbigo, decididamente isso é de fato uma norma. Já ouvi a menina exibindo cantando que nada a deprimia... E depois sumia. Talvez fosse para outra galáxia ou talvez tocasse violino para inspirar um milhão de alguém. Lá vem um inverno rigoroso... Vou colocar um casaco, deitar, ler e tirar um cochilo. Na luz da coragem o pé de luz cresce (além de contador de história, da necessidade de mentir, objetivos, escritos e glórias). Até coloquem palavras em minha boca... Mas que nasçam poesias. Não, não é meramente escrever poesias... É desenhar sentimentos. 

André Anlub


Das Loucuras (sua identidade, a do papel e a imposta)


Das Loucuras (sua identidade, a do papel e a imposta)

Aquele padrão,
Patrão egoísta que lhe tira os direitos;
Rouba a liberdade,
Seus verdadeiros trejeitos...
Está ciente?

Chega cheio de dedos,
Rouba nos dados
E sempre está com a razão...
E não é cliente!

Que mal que há? 
Por que não “que mau que há”, com “u” mesmo?
Mal com “u”, com “l”, com “o”...
Tenha dó, isso pouco importa no texto.

Bandeiras são hasteadas pelas pátrias enteadas
E seus nada sinceros sorrisos.
Tempos omissos que não ensinam nada;
Tumbas presentes esperando a manada.

Vamos variar as linhas,
Avivar com outros “algos” positivos...
Sem doutrinação,
Sem doutor, 
Oração,
Imposição,
Só alguma posição no Kama Sutra,
Sem academicismos.

Fardas, fardos,
Falsos hippies, roupões;
E aquela pantufa imunda porque saiu às ruas nas andanças...

Sem misericórdia,
Sem queimar sutiãs (porque não há)
Sem queimar colchões (só trepar)...
Mudamos os acordes
E acordamos para as mudanças.

De repente,
Com uma baita moderação – ou não –,
Conseguimos uma manutenção da massa – que pode virar pão.
Sem lamber sabão,
Liberar sua libido,
Ser um ser bem resolvido,
Com um pé à frente esquecendo o umbigo.

André Anlub®

13 de fevereiro de 2019

O som do sino


O som do sino

Surge o estalo disso ou daquilo, 
Parte “Stalin” com o princípio de um novo;
A poesia e a guerra se encontram no inicio,
O precipício é o belo corte de adaga.
Ser visível é risível, já que se apaga
Se ficar retido na essência d’um ovo.

Todos se divertem assim na batalha:
As águas rubras surgem regando, passando,
Molham os pés e vão subindo aos joelhos;
Os coelhos saem das cartolas,
Voam sem rumo às cartas da mesa;
O público aplaude de pé a beleza
E a destreza do mágico mago de Angola. 

A peleja fortaleceu o Bento e a Benta,
Amor que abaixa a mão, indo ao resguardo;
No apreço que se funde a compaixão
Faz do mundo elevação, redesenhado.

Submersos, todos reagem ao afogamento,
Já que as águas chegaram à cabeça.
Já sem limites, sem distinção,
A epiderme torna-se clara ou negra;
Sem rodeios, sem interlocução,
Vão se os “nãos” e ilumina-se o momento.

Somente só e dó dormente pó,
Ser e estar do outro lado.

Das ruinas ergueram-se castelos,
Tocaram as nuvens com suas altas torres;
Lá em cima não é sonho o som do sino,
Voa e ecoa para cá em baixo em desatino...

Mais agudo, abrupto, e mais agrado,
Mais afino, continuo e adorado.

André Anlub®



12 de fevereiro de 2019

Nossa Holanda


Nossa Holanda

Fazer o bem sem se gabar a cem,
O bilhete diz absolutamente o que mereço.
Diz tudo e muito mais um pouco...
Está explicito ali, para olhos que veem.

Infiltrando-se por dentro do corpo oco
E por fora mantendo o brilho extenso.
A capilaridade social impede o fundo do poço,
Ainda que possam empurrar o sol para dentro.

Há as mais puras inércias...
Nos países baixos.
Há a maior mentira discreta...
Pra não fica por baixo.

Mais um adendo: 
O corpo não se sustenta
Não há omelete sem ovo
Nem borda sem centro...
Mas há quem inexista e aguente.  

Nossa Holanda inventada
Também tem ciclovia que brilha
Em artes de Van Gogh inspirada
Numa folia de vaga-lumes em trilha.

Vejo-a naquela pantomima...
Todos vão com tudo na encenação eloquente.
Sem não há fé, vá sem fé mesmo...
Pega-se um ônibus, dobra-se uma esquina,
Mas com um pouquito de crença
A vida, com ou sem desavença, fica mais a contento.

Vejo-a bela e sorridente,
Dentro de nossa antípoda.
Não é preciso falar ao meu ouvido,
Eu já nasci entendendo.

Sussurre ao abismo,
Sem eco, sem ego, sem medo.

Século de nada, de sangue, de ouro,
Rasga-se o couro...
O mestre dos sonhos e seus tesouros.
Tudo para se gabar com os louros.

Nuvens cinza se dispersam com o vento,
E nesse lamento as lágrimas secam.
De um lado da bifurcação o mar e a lua que refrescam;
O que fica para trás é só o fim do começo.

Bem visíveis às pegadas
Na areia fria da necrópole,
E a semântica dessa semana
É branda e já está sanada.

Estacionada na nossa Holanda,
Nossa enrolação nos enrole
Com moinhos de vento,
Ventania inventada,
Eu e você, de mãos dadas,
Constituindo nova prole.

André Anlub
(12/2/19)


10 de fevereiro de 2019

Das Loucuras (contabilização dos zeros)





Assim começa a história:
Tatuou todo o seu corpo - sem treta -,
E para não fazer desfeita,
Deixei que tatuasse toda a minha memória.

Das Loucuras (contabilização dos zeros)

Na placa de vende-se
O sofisma disfarçado de habeas corpus;
São tantos nós querendo deixar o mundo dos espertos.
E ele indiscreto,
Hiante com seu olhar cínico de soslaio...
Abre o balaio-de-gatos,
Expõe seu fato – antes feto – e calça o sapato.

Dentro do ensaio arreou o cavalo,
Arriou sua calça num papo furado com mortos...
Aos porcos joga as pérolas falsas;
Aos “parças” joga a pílula branca.

Vai-se no mundo sem rumo,
Como uma folha levada com o vento;
Compra jornal numa banca
E coloca na sua mente uma âncora.

No inferno a essência,
Por excelência, reconstrói Roma e queima Nero;
Dentro de um sorriso amarelo,
Fornece extintores extintos...

Frágil casca de ovo
Que por assombro expõe um pinto faminto:
Busca comida, lazer, o que fazer,
Limpar a pia, lavar a louça, poesia;
Busca dinheiro, o maneiro, o marinheiro,
Amigo, abrigo, o altivo, o mero. 

Na placa de vende-se, o enigma:
Tudo é tudo, menos zero.

André Anlub

9 de fevereiro de 2019

Mais tubo ação


Mais tubo ação

Eis que surge como ofício
Alargar na fechadura o orifício
Arruma o meio dentre o fim e o início
Faz da admiração o hospício.

Afim a todos, afim até a mim
Iça, acende e segura vela
Enfim fará o fim
Se te virem a fim
Beijando uma fria tela.

Nada incomum ou insana é sua gana
Até ser platônico não é coisa rara
Quando é De Armas a Ana 
E a Delevingne de Cara.

André Anlub
(9/2/19)


Das Loucuras Epílogos e metempsicoses

Quem cala consente;
Quem fala call center!

Faça o que eu minto,
Mas não faça o que eu faço.
Tem carma que não é carma,
É licença poética do destino.

Ao som de um jazz,
Ouvem-se as insanidades ronronantes
Que trazem tudo novamente... 
E sem compromisso – assim, como antes.

E os heróis estão chegando, e não estão sozinhos.

As ambições poluem o ar, como um incenso maldito,
Atravessa a barriga, da espinha ao umbigo, de mansinho.

É icônico, mas acordará o mundo com o seu grito.

“Alagados, Trenchtown, Favela da Maré”...

Ninguém gosta dessa exposição!
- A do Guggenheim? 
- Sim!
- E sobre quem é?
- É, sobretudo, sobre todos...
É sobre Maria e Zé. - Alfinetou Hyde.
- Mas sobre quem mais é? 
E Hyde riu!...
- Sei lá! Ninguém quer arrumar briga.
E o Doutor Jekyll se despediu.
E o senhor Hyde disse: me liga!

Fato consumado, passaremos ao próximo estágio:
Sob o domínio da inspiração, iniciou-se assim a ação...

O som da premissa fica a cargo de Chico Freeman.

Entrega-se o ouro ao bandido,
E no mesmo momento o bandido à justiça.
Sonha com aquele Mustang
Com banco de couro, cara de novo 
E Cara Delevingne na direção 
(talvez fosse a Ana de Armas).

Torturas à parte,
Tortilhas espanholas reparte,
Um sorriso, um amasso,
De Hollywood um maço...

É março em plena estação.

O apetite se eleva ao espaço,
Ficou “amarradaço”...

Mas a loucura permanece doidinha
Com os cascos no chão.


Andre Anlub

Das Loucuras (na sacada da vida)



Das Loucuras (na sacada da vida)

Nem vale a pena esperar mais; o descontrole é absoluto...
No dissoluto do tempo, a brincadeira mais sem noção.
Vejo-me a cada dia com a barba maior e o cabelo mais ralo;
Caio rápido no fundo do poço de um buraco sem fundo.

Há de se ver uma saída nesses traços deixados no papel:
No mar calmo um sonho; na alma desnuda uma quimera...
Assim como abelhas homicidas que cercam a doçura do mel,
É a força que tive e tenho para erguer a espada nessa era.

De pé – ontem –, na sacada da vida vacilei;
Eram quarenta e seis andares de queda.
Poderia suportar até cem? Realmente não sei...
Minha armadura anda amarrotada pela guerra.

Deitado descanso fazendo estratagemas com a paz...
Sou afortunado por não ter escapulido por um triz;
Pé à frente, fé atrás, rosas em canos de fuzis, “aqui jaz”...
O que eu não suporto é viver arrependido pelo que não fiz.

De pé – hoje –, acho que vale a pena qualquer espera,
Pois o real controle sempre estará em nossas mãos;
Ainda suportaria mais um milhão de apegos em vão,
Mas sem a incumbência da perfeição que impera.

André Anlub
(1/8/17)

7 de fevereiro de 2019

Delirium Liricus



Das Loucuras (refrigeração Cascadura)

E no sempre: as entrelinhas dos entre tantos,
Pensamentos vagos dos solitários viajantes.
Além da constelação mais distante
Achou-se, mas não gostou do rompante.
Rasgou como seda, sedou-se como um vivo-morto;
Abandonou involuntariamente o seu posto
E foi-se como zumbi ao mais próximo instante...
Entrou no navio sem rumo, ou agrado ou porto;
As promessas ficaram na placenta (na prancheta) do útero,
Multiplicou por quatro, e tudo nem é muito ao quadrado...
E ainda há aquele plano (de prato) incomum.
Sem medo emendou-se feito fio feito de cobre,
Cobrou-se e encabulou-se com o resultado...
E de volta ao lar, à estaca zero do ato,
Viu-se imóvel e isolado no quarto apertado.
Era tudo novamente ao começo, sem tropeço ou avesso;
Pegou poemas e teoremas e preferiu somar um mais um.

André Anlub®

Amor embriagado


Amor embriagado

- Remédios para uma cabeça retrógrada: 
uma dose de “amanhã” pela manhã, 
uma de “acaso” no ocaso 
e outra de “ironia” ao fechar do dia.

Venha, venha logo, traga o vinho e a taça,
Pois a comida quente e saborosa vai esfriar.
O ar está glacial, deve ser o efeito do ar condicionado
Com minha impaciência e a corriqueira pressão baixa.

Seu amor me implantou uma espécie de dormência,
Algo incômodo que carrego junto à carência. 
Amor fantasiosamente assombroso – casto colosso,
Que me pisa impetuosamente com pés quilométricos
E me acende o sorriso mais um par de vezes.

Por você, a nado, atravesso quaisquer continentes...
Sigo de mansinho ao limbo desconhecido e inóspito;
Escrevo o poema sem nexo, sem contexto e pretexto,
Mas o faço um texto bem-sucedido, laureado e exótico.

Venha, venha logo, antes que acabe esse meu sonho.
Como de praxe: amanhã olharei novamente sua doce foto,
Fecharei meus cegos olhos negros, ainda encharcados de clemência...
E construirei, esculpindo pouco a pouco, o seu corpo ao meu lado,
Com vinho, com a taça, com a pirraça da minha demência
E o meu tenro amor embriagado.

André Anlub
(2/2/15)

Biografia quase completa:

Escritor, autor de sete livros em papel: Poeteideser de 2009 (edição do autor), em 2010 o e-book Imaginação Poética, em 2014 a trilogia...