A histeria de hoje, muito compenetrada no seu papel de para sempre por algumas horas, rasgou tudo que a histeria de ontem escreveu para se lembrar no dia seguinte.


Tinha uns ares em que passarinho algum ousava bater asas. Quando muito, eram ares que permitiam aos passarinhos andar de cabeça baixa, olhando para o chão e contando as pedras do calçamento.


Não sabia rir. Mas tinha uma prima muito risonha. Pediu que lhe ensinasse.
- Faz assim, ó.
Não deu certo.
- Então faz assim.
Também não deu certo.
- Só sei mais um jeito. Se não der, desisto.
Claro que não deu. Voltou para casa pensando em quem na família também era risonho como a prima.


Dentro da esperança mora uma alucinação que às vezes faz um bem muito grande e outras vezes é apenas uma alucinação.


- Não tem nada pra dizer.
- Mas fala como se tivesse.
- Não é o que todo mundo faz?


De alguma forma a forma chegou ao conteúdo e apresentou uma penca de reivindicações. O conteúdo se conteve, teve tudo para se irritar mas não. Como cabe a quem sabe o que lhe cabe, expôs de volta suas razões e motivos. A forma ameaçou fazer as malas. O conteúdo pulou para dentro delas.


As coisas começaram a ficar esquisitas quando Jobiléu trouxe Maquidão para casa e disse que o estranho ia morar com eles.
- Mas é um estranho, Jobiléu! O que deu eu você?!
- Não para mim – respondeu ele passando a mão cheia de dedos pelos pelos do peito trabalhado de Maquidão.


Perdeu os poucos amigos que tinha num jogo de cartas. Apostou todos eles na certeza de que ganharia, tinha quatro reis na mão. Quando aquele sujeito asqueroso, com seu bigodinho de Clark Gable baixou os quatro ases na mesa, ele não quis acreditar. Não lhe restava mais nenhum amigo para apostar. Levantou desolado e foi beber no bar. Ninguém notou sua presença no balcão.


- Até os teus defeitos sabem que as tuas qualidades são maravilhosas.
- Ah, mas eles sempre enxergaram torto, não vai atrás deles!


Vinha caminhando distraído e, de repente, já não era mais a calçada, era uma nuvem. “Parece a ideia idiota americana de haver morrido”, pensou, lembrando de muitos filmes tolos em que isso ocorreu. Então estacou. “E se isso aqui for um daqueles filmes tolos? Pior ainda: e se um daqueles filmes tolos estivesse descrevendo isso aqui?” Começou a pisar com mais força naquele chão de nuvens. Mas ele não afundava nem um pouco.


Quis marcar encontro consigo mesmo, precisava muito dizer-se umas verdades e esclarecer pontos obscuros, mas não conseguiu se encontrar para isso, Os recados que marcou retornaram. O correio carimbou endereço inexistente e o servidor de email também. O que é que eu faço agora, perguntou a si mesmo. E continuava não respondendo.


ALGUNS MINICONTOS

O tipo de pessoa chegou todo arrogante para a espécie de pessoa e exigiu passagem. A espécie de pessoa mirou-o de alto abaixo e mandou que fosse falar com o tipo de gente.


- Ele sempre diz o que pensa!
- Pena que nem sempre pensa no que diz...


Se fosse verdade o que estavam dizendo de Atulínia, ele simplesmente não conhecia a pessoa com quem estava vivendo há mais de quarenta anos. Então, claro que não podia ser verdade o que estavam dizendo de Atulínia. Ou podia?


Sem perder tempo, correu a não fazer nada antes que tivesse que fazer alguma coisa.


Cuidados extras levaram Matubina a não pisar onde devia, não falar o que devia, não fazer o que devia. Cuidados extras levaram Matubina a ter muito cuidado com cuidados extras.


Quem quisesse ir junto tinha que pedir tanta licença, mas tanta, que acabava preferindo ir separado.


Ficando com a impressão quando a impressão podia ter ido embora, Falitto ocupou com ela um espaço que a impressão nenhuma gostaria de ocupar. Ficaram a impressão e a impressão nenhuma insatisfeitas enquanto Falitto contava a amigos que não o ouviam a impressão que lhe ficara.

(Rogério Camargo)

Postagens mais visitadas deste blog

A chuva bem-vinda

Um Eu qualquer

Parte XI