ALGUNS MINICONTOS

Era simplesmente estar ali. Por isso toda a dificuldade para simplesmente estar ali.


- Essa coisa de paixão é muito complicada, rapaz. Você diz que sim, ela diz talvez; você diz que não, ela diz vamos ver; você diz eu quero, ela diz vou pensar.
- Pois é, rapaz. E quando você diz talvez e ela diz que sim?!
- Então! Não é uma barra?


O silêncio floria. Era uma flor silenciosa, claro, feita de recolhimentos, introspecção e alguma timidez. Mas era uma timidez diferente: já havia corrido o mundo e falado com muitos pássaros.


Zalla, a louca, não era louca. Alguém loucamente metera na cabeça que Zalla era louca, conseguira convencer mais alguém e quase convenceram Zalla. Para manter a fama e seu lugar na clínica, Zalla até dava umas risadas estranhas e arregalava os olhos, de vez em quando. Davam-lhe um sedativo, ela perdia um capítulo da novela, mas por uma semana ou dez dias consideravam seu dever para com ela cumprido. Ela também.


A zona rural estava encolhendo. A cidade avançava em direção aos campos com a fome de um leão magro. E o que ela abocanhava não devolvia nunca mais. A zona rural preocupava-se em escrever sua história, pelo menos, para o dia em que tudo fosse a cidade e não houvesse nada além da lembrança. Mas ela escrevia com suspiros num pergaminho de lamentações. Nenhuma biblioteca da cidade receberia este livro. Talvez um museu.


- Eu já li todos!
- Mas são dois mil, oitocentos e vinte e quatro!
- Tô dizendo, eu já li todos.
- Pela ordem, alternado ou de trás pra frente?


- Eu ainda não cheguei a este estágio.
- E você sabe para que estágio está indo?


- Me ensina a ser feliz?
- Claro. Quando é que tu tens tempo?


O neonazista estava muito preocupado: sua suástica virou ao contrário e não havia jeito de desviar. A cada vez que ele tentava força-la a isso, ela girava, ameaçando decepar-lhe o dedo. Quando tentou com um pedaço de madeira, ela partiu-o em vinte. Quanto tentou com um ferro, tomou um choque violento. O neonazista chorou de desespero, as lágrimas pingaram na suástica e evaporaram no mesmo instante.


- Não pode ser assim!
- Então como é que está sendo?
- N´~ao brinca comigo!
- Não estou brinjcando. Pelo contrário, estou fazendo uma pergunta muito séria.
- Você está confundindo o “pode” moral com o “pode” factual.
- Tem certeza de que sou eu que estou confundindo os dois?


Muito elegante nas suas alpargatas marrons, suas meias vermelhas, sua bombacha azul, sua camisa branca, seu lenço verde, seu chapéu de feltro, bigode aparado, sorriso abundante, Gevinácio não entendeu nada quando lhe bateram a porta na cara dizendo “vai embora senão eu chamo a segurança!” Que diabo de mundo era aquele?


Volta e meia não há meia volta: é seguir em frente e seguir reto, sem pausa para o cafezinho e o papo furado.


A vida é melhor quando não quer ser melhor e não se sente pior porque não é melhor.


Beprilina deixou que sua mão saísse flutuando mundo afora, levada por uma brisa brejeira que, quando Beprilina pediu sua mão de volta, riu gostoso e respondeu:
- Vem buscar.

(Rogério Camargo)

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