Dueto da tarde (C)



Dueto da tarde (C)

O passado passando e as mãos tensas enterradas nele, querendo mais.
O que uma vez foi jamais agora se torna sempre, e o diferente é meu mais novo espelho.
Busca desesperada do que não está estando: a memória é um fato. Fatal é ser mais do que memória.
No bloco de notas as anotações recentes de décadas atrás. Déjà vu eterno que serra seus dias e se enfia no meio.
Já foi mas continua sendo na vontade de que não deixe de ser. O delírio é um antúrio de pétalas negras e odor de enxofre.
Há dinossauros dançando Polca no centro da sala enquanto balas gorduchas de garruchas voam sem bússola.
Uma boca enorme com dentes descendentes de acidentes pretendentes a tragédia se abre.
Agora veio buscar a vida e visando romper o tempo – cem anos são parcos aos que vivem vivendo, erguem monumentos e não se chamam Oscar.
Quando fala, as arcadas tamborilam, castanholam, saxofonam, (de)compõe o som da cor no arco (e flecha) da íris.
Agora se abrem alas, surge o som do sino abrindo caminho para as passagens dos carros-chefes, carros-fortes, carros-anfíbios e os caros amigos.
Amigos caros, que custam a pouca paciência destinada à suportação. O presente é um presente que o passado já desembrulhou e deixa de antemão na mão de quem o mereça. Depois se torna barro para esculturas, torna-se ideias e é atirado à dança no meio do salão do mundo.

Rogério Camargo e André Anlub
(21/3/15)

Postagens mais visitadas deste blog

A chuva bem-vinda

Tempo de recomeço

Um Eu qualquer