Dueto da tarde (CLXII)



Dueto da tarde (CLXII)

A faca penetra gelada no coração e exige ser bem recebida.
De imediato a dor se espalha, percorre todo o corpo e estaciona no cérebro.
Cérbero à porta, rugindo inutilmente com as três bocarras: Isso é injusto!
As sensações explodem enquanto a lâmina malandra, cega, carcomida pela ferrugem vai se fragmentando.
Dissolve-se a faca gelada no coração, dilui-se no sangue, passa a circular com ele. O corpo estranha mas precisa continuar vivendo.
Agora o corpo mais quente, há brilho nos olhos, suores na mão e os sintomas que beiram uma contaminação.
“O que é que você tem?” “Uma faca velha correndo nas veias”. “Não acredito!” “Eu quase também não”.
A alergia piora, a dor torna-se quase intolerável, o coração apressa e a pele comprime... Tudo isso quando ela está por perto.
Quando ela está dentro, é pior ainda. E quando ela penetra gelada exigindo ser bem recebida, parece que o sentido de honra do mundo foi para o esgoto.
Pode haver o revide – deve haver o retorno. Uma espada dos Templários da época das Cruzadas, gélida e antiga – porém nova – indo em direção ao coração de quem atacou primeiro.
Revide revive: não resolve uma espada enterrada lá se continua uma espada enterrada aqui.
A saída é a trégua dos dois lados; nada mais de espadas e facas, dores ou prazeres. A saída é abdicar-se do campo de batalha e escolher o distanciamento.
E enquanto a saída comemora seu neón piscante a dizer “sou eu, sou eu!”, a faca acomoda-se e protesta se a extirpam. 
A sangria ocorre – mesmo que imaginária – a cor rubra invade os passos – o olhar; os sonhos começam a pipocar pelo espaço e as lâminas de aço param de incomodar.
Na gaveta, no faqueiro, nos armários, nos mostruários, nas paredes, até podem exalar inocência, mas na metáfora do amor caem em mãos certas/erradas e abrem dois talhos na carne: cumplicidade ou rancor.

Rogério Camargo e André Anlub
(24/5/15)

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