Dueto da tarde (CLXIV)



Dueto da tarde (CLXIV)

De frente para o que ficou para trás, olha e fecha os olhos.
Mais um trago, mais um rasgo no peito. Deita-se e grita.
As paredes absorvem seu grito. As externas. As internas não absorvem sua aflição.
Sua intenção é disfarçar o momento... É tudo em vão.
Pelo vão dos dedos escapa o que poderia. E o que poderia? Apenas gritando, o que poderia?
É malandro, mas ainda não aprendeu a malandragem; é do povo, mas ainda não aprendeu a comunhão.
Com teorias enche um balde., Com soluções caseiras enche outro. E vai deixando os baldes pelo caminho, como quem recolhe pingos de goteiras.
Os olhares enxerga a vida; disso é a única e básica certeza. De resto vem à clareza de nada estar claro. Mas a vida continua.
A vida não só continua como não para. Não existe parem o mundo que eu quero descer. Mas ele grita.
Parem o mundo que eu quero descer: isso não é só uma frase – desabafo – uma música, é a realidade de muitos... É só parar e ver.
E é só não parar, é só continuar andando e chega-se ao chega!
Existe um segundo “ele”, ele sabe, mas quer assumir. Existe um mundo paralelo, até a tentativa de um elo, mas esse ele dispensa e conhece muito bem.
Lá é lá. Aqui é aqui. Mesmo lá sendo aqui. Mas enquanto não se tiver nas mãos, estará gritando com as mãos vazias.
A verdade é clara e a luz já veio; a realidade é rara, mas também veio. É uma tarde cinzenta, mas assim se colore; é uma tarde nojenta mas o beijo está no ar.
De frente para o que ficou para trás, olha e abre os olhos. A claridade inusual fere e assusta. Mas os olhos estão abertos.

Rogério Camargo e André Anlub
(27/5/15)

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