Dueto da tarde (XXXII)


Dueto da tarde (XXXII)

A lua procurava seu pedaço faltante com a preocupação de uma criança no meio de um brinquedo complicado.
Era como um grito calado, a boca minguante tornando-se cheia e a névoa parecendo sair dela.
Quem olhasse talvez visse. Mas não era com isso que a lua se ocupava, não era com o espetáculo que dava.
Com o mar como ofurô, flertava com as águas sem pedir nada em troca (pelo menos no reflexo).
Ela quer a si mesma, como todo mundo quer a si mesmo: os que flertam com as águas e os que flertam com a lua.
Sim, no fundo pode não haver distancia para o nexo; sim, no mundo pode não haver na fenda a distância para o fundo.
A lua procurava seu pedaço faltante como todo mundo procura seu nexo. E o seu fundo.
O momento de se conhecer: se olhar no espelho e não saber quem é quem; momento de florescer: ser o que é sem se importar em ser para alguém.
Enquanto isso, a luz da lua, sempre a luz da lua, ainda e sempre a luz da lua
Ilumina o pedaço que falta, dá espaço aos espaços das fendas, é presença em todas as almas, espelho para o mundo que há no mundo.

Rogério Camargo e André Anlub®
(10/1/15)

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