Dueto da tarde (CXI)


Dueto da tarde (CXI)

Galhos balançam, folhas e abacates caem, pássaros voam soltos e o dito diz assim: nada como um dia após o outro.
Caminhávamos de mãos dadas e de repente foi isso que vimos, como que num complemento.
Num breve instante veio-me um dilúvio de alegria; sumiu a alergia ao pólen, foi-se a fotofobia e até esvaeceu a fúria da pérfida liturgia.
E vi teu rosto iluminar-se como se a lua voltasse ao meio-dia, com suas mágicas afastando as trágicas melancolias.
Os joelhos foram ao chão estalando as folhas secas; peguei sua mão lívida, cálida e suada, e fui ao intento:
Uma prece (acontece) suprimida pelo êxtase. O encontro do azul com o azul – nos teus olhos e no céu.
Na suavidade do seu ser sereno encontro e adoto o meu lar; deixo desaguar toda a emoção que anseio dar e entrego-me pleno.
O dia que veio após o outro – aquele outro – me trouxe a dádiva e eu aceito a dádiva.
Galhos inquietam-se, folhas e abacates reaparecem, pássaros descansam e cantam bem baixinho e o dito diz assim: felicidade se multiplica quando dividida.
Pode que amanhã acabe. Pode que agora mesmo acabe. Não é o que importa. O que importa é a certeza de que existe e persiste o amor nela, o amor de alguns ou de todos.
Por ela os galhos balançam, por ela os frutos exultam, por ela a vida em torno é um retorno à vida em toda parte.

Rogério Camargo e André Anlub
(1/4/15)

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