Dueto da tarde (CXLV)



Dueto da tarde (CXLV)

A diferença os uniu de tal forma que fundiram, se misturaram e se solidificaram, criando assim um terceiro extremo.
Nada foi tão igual como quando foi diferente. E nada foi tão um como quando foi mais de um.
Nas três partes coube a uma a fantasia, à outra o arranjo e à terceira a pitada de rebeldia.
Três estrelas num céu nublado. Três ponteiros no relógio da vida – e nenhum deles é o dos segundos.
A diferença os uniu e a indiferença os cimentou. Como uma linha de lã beijando a tecelã que abraça o frio.
Como a persiana que conversa com o sol depois que a vidraça já conversou. Como o pensamento que vem depois do pensamento que veio antes.
Norteados pela aceitação, criam, recriam e abusam do poder de criar; transformam seu norte em sul, leste e oeste... São como três sóis em um céu de um só sol.
A diferença mostra-se indiferente. A indiferença também se mostra indiferente. E eles, entre si, não fazem distinção entre o que não é e o que também não é.
E eles em elos, em alas de eles e elas, enlaçam-se enlouquecidamente mostrando aos olhos curiosos e os nem tanto o quanto os tão diferentes podem ser tão iguais.
Laço que esquece a falácia, que não busca palácios – já mora em todos –, que junta pedaços e eles não partidos foram.
O céu cede o espaço infinito aos sóis, ao tempo, as luas e estrelas, os pontos cardeais, a rosa e o vento, à rosa dos ventos e todos que queiram vir à festa, pois sob o céu que observa não há ninguém mal vestido.
E se há alguma razão para sofrer a diferença, ela é a mesma razão para festejar a diferença. Não há nada mais igual sob a face do céu; não há nada mais sobre a face de tudo que a face do céu.

Rogério Camargo e André Anlub
(6/5/15)

Postagens mais visitadas deste blog

A chuva bem-vinda

Tempo de recomeço

Um Eu qualquer