Dueto da tarde (CXLVI)



Dueto da tarde (CXLVI)

Minha vida foi bater à porta de tua vida e encontrou uma placa “à venda”. 
Vi-me vendo o desalento e desafiando a esperança.
Limpei os pés em um tapete ralo e deprimente e com eles pisei num assoalho carcomido de cupins.
Os fins – a meu ver – nunca justificam os meios, mas por acidente veio-me o apego.
Olhei os teus retratos desbotando nas paredes, um resto de flores secas num vaso rachado e meu peito se apertou.
Olhei o corredor longo e extremamente estreito levando àquele quarto abafado e lembrei-me dos nossos corpos ali, sem jeito, fazendo amor.
Lembrei dos cigarros que já não fumo, da “smoke gets in your eyes” ao me perguntar o silêncio o que eu nunca te respondi.
Há absolvição de inocentes? Se há, quero a minha. Nesta história incoerente e nada a ver, tiro o corpo fora e viso que risque o meu ser.
Nenhuma de minhas tatuagens conta melhor esse conto que o ferro em brasa da memória. 
Na cozinha o cheiro do guisado – nos armários o da naftalina; na retina a visão das paredes manchadas com a linha de marca d’água das enchentes de rotina.
Mais transbordava minha vida que a água revoltada do rio. Mas me afogava eu em nós do que os desabrigados obrigados a fugir.
Sou o rugir da fera banguela, o vermelhidão da febre amarela; sou o rato no lixo zombando da águia no voo e vou/quero abrir mão desse vínculo baldio.
Retrocedo lentamente, lentamente fecho a porta, lentamente dou as costas à placa aviltante e não volto mais.

Rogerio Camargo e André Anlub
(7/5/15)

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