Tarde de 16 de julho de 2016


Tarde de 16 de julho de 2016
(Um país tropical, de abertas, torneadas e depiladas pernas para o ar)

Alguém, nesse exato momento, sentiu uma dor profunda no outro extremo da galáxia; eu garanto! E nesse planeta, onde tudo renasce, se crê e se inventa, trombetas soaram, corpos suaram, mentes sonharam e num sono inimaginável – num sopro – foi achada a cura, o soro que sara e que supre; o Eu clérigo, o Eu cor, o Eu nada, culpado, escalpelado e novamente esculpido, meu mea culpa, minha cópula, meu copo derramado de truculência, demência e desvio. É, já estava na hora, ou até passou da hora, vou esquentar a caneta; por que será que o tempo corre mais do que tudo e todos, até mais do si próprio? Vontade de mar. Bárbaros farejam, festejam e sorriem com as sangrias; com o vinho derramando do copo, pelo canto da boca – manchando a roupa, e os carneiros sendo preparados para o almoço, dando água na boca – manchando a roupa. O barbado fez sua barba, cortou seu cabelo e se disse brasileiro – bem feito (é um homem bonito). Pernas para quem te quero, pernas para o ar, o ar rarefeito, o defeito e o efeito borboleta que me trouxe, dos pés à cabeça, duas coisas: a sensação de isolamento e esse texto. É real, acho que talvez seja somente quase real; as legendas da vida passam lentamente, é final de temporada – já começando uma nova –, uma ova que ficarei parado, é a luz da lua nova que antecipa as jogadas; legendas passam, pisam e pesam, pisando em ovos, no meu pelo eriçado..., mas não há previsões. Ouço aquela música lenta que me marcou de jeito, feito gado, e eu languido, largado, alienado num tempo remoto, causando terremoto no espaço quadrado – agora quebrado – do meu plácido peito... A música deixa traços, como o rabo de um cometa ou aquela corneta desafinada. Isso é um sonho... linha reta com setas que insistem no óbvio e obscuro sentido. Estou bolado, estou abalado, sinto-me embalado em um grande e preto saco... E desço... e deixo... e desço rolando esse caminho, essa linha reta, que não periga dar em outro caminho, pois essa estrada é reta e também errada. Estradas erradas costumam ter um ótimo asfalto. Nada disso, tudo dito, mudo o disco: quero ser mais eu, mas sem a carne exposta, sem facada nas costas, encosto que encosta e fica... Zé mané! Abram as portas, janelas e chaminés, distribuam cafunés e massagens, coloquem uma música clássica, abram a caixinha e relaxem... hoje vai dar – ou já deu – pé. 

André Anlub

Postagens mais visitadas deste blog

A chuva bem-vinda

Tempo de recomeço

Um Eu qualquer