Há dois furdúncios no ar, duas eletricidades, dois assuntos eletrizantes. Pelo menos pra quem gosta de excitações. A caso de racismo da menina gremista que chamou o goleiro do Santos de macaco, no calor de uma torcida, e o caso do casamento homoafetivo que iria se realizar em um CTG, em Santana do Livramento, e foi transferido para o fórum porque puseram fogo no galpão. O mérito das duas questões me interessa muito pouco. Sou capaz de achar que a garota torcedora, cuja casa um imbecil completo tentou incendiar há dois dias atrás, estava fazendo uma bobagem, foi apenas inconsequente. Afinal, ela tem vários amigos negros e até namorada de um ou mais já foi, de maneira que o racismo dela, se existe, é um tanto esquizofrênico. Também sou capaz de achar que duas gays casarem-se num CTG está mais para espetáculo circense do que para cerimônia respeitável. O que também é absolutamente pueril. Pouco importa o que estou achando nestes dois casos. O que eu vejo de interessante é que as pessoas estão sendo obrigadas, pela força da reação de uns e de outros inconformados, a olhar para o que não querem olhar. Racismo existe sim, seus hipócritas, e é uma coisa ruim, é um entrave, é uma pedra no caminho do progresso destas sociedades emperradas, retrógradas, quase senis. Homofobia existe sim, e é outro grande atrapalho. Como toda ideia preconcebida. Como todo é-assim-que-tem-que-ser. É muito fácil bradar por liberdade quando ela significa tão somente a formalização daquilo que temos por certo. Ou conveniente. (Via de regra o certo não passa de uma conveniência.) Lutar pela liberdade de alguém fazer o que nos incomoda sai muito mais caro. E é infinitamente mais útil: obriga-nos a olhar para as causas de nosso incômodo, com as quais ninguém no mundo tem nada a ver.

(Rogério Camargo)

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