VITIMAÇÃO x VITIMIZAÇÃO

Vamos diferenciar vitimação de vitimização?

(1) Vitimização é se colocar inapropriadamente no lugar de vítima. Por exemplo, a classe alta e a sua lógica narcísica de que o outro é sempre uma ameaça. Portanto, ela é sempre vítima;
(2) Do outro lado, temos a vitimação, que é ação de tornar alguém ou algo vítima. É subjugar. É matar. É destruir. Algo que ocorre com muita frequência em relação a certas coletividades: negras e negros, gays, lésbicas, transexuais, mulheres, populações pobres;
(3) O mais curioso é que essa vitimação de certas coletividades está diretamente ligada ao medo e a vitimização da classe alta, que provoca uma demanda por segurança pública. E segurança, muitas vezes, se reduz ao extermínio do outro que “ameaça”;
(4) Outra forma de vitimar certas coletividades: impedir que elas se tornem agentes políticos. Garantir a hegemonia do discurso para que aquilo que se diz ganhe contorno de Verdade;
(5) A desqualificação e invalidação do lugar de fala de certas coletividades tem origem no medo da classe alta, mas é reproduzido por toda sociedade – e até por intelectuais;
(6) Podemos dividir essa desqualificação/invalidação da seguinte maneira: (i) intelectuais que se acham qualificados para assumir o lugar de “consciência das minorias” e falar por elas (ii) a invalidação da experiência de sofrimento do outro;
(7) Essa invalidação da singularidade da experiência passa pela utilização de recursos argumentativos, que costumamos chamar de “senso comum”. Por exemplo, dizer que o outro está se vitimizando, quando estabelece algum tipo de narrativa sobre a sua exclusão social ("sou gay e nordestino");
(8) Não achem que o senso comum é inofensivo e que desarmamos com facilidade alguém que chama o outro de vitimista por se dizer gay e nordestino;
(9) O discurso preconceituoso e perverso do senso comum está em tudo. Sobretudo, onde o poder se instala – inclusive, o poder intelectual, não se enganem! Desconstruir isso é uma tarefa militante que não termina. Não por acaso, dizem que saberemos que houve uma revolução, quando mudarmos o senso comum.

por Daniela Lima, do Coletivo Jandira

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