Dueto da tarde (CLXXIX)

Dueto da tarde (CLXXIX)

O palácio limpo e decorado, ouro e joias brilhando e o coração apertado em um pequeno espaço.
O coração é uma casa simples e quer continuar sendo uma casa simples.
A mente, por sua vez, é proprietária de um desmesurado terreno. Vai além das fronteiras, além das barreiras do espaço-tempo.
“Caber no seu espaço” – nada além de um bom sensato conselho tomado por maldição.
“Cada macaco no seu galho” – mas que problema! E se o macaco prefere morar em uma caverna ou em Ipanema?
Depois pede para outros macacos quebrarem o seu galho. Pedido ocioso: o galho vai quebrar com o peso da caverna, com o peso de Ipanema... 
O palácio continua intacto – limpo e solitário –, sem uma morta ou viva alma.
E o coração continua pequenino, oprimido, sufocado, sem ocupar o seu espaço.
Pensou em uma solução simples e clara para os dois casos: repartir/compartilhar o palácio – entregá-lo ao povo, aos menos abastados.
Por dois minutos os menos abastados foram felizes, na sua imaginação. No terceiro, um deles já era o dono de tudo, à força de golpes e truques.
O palácio agora tem novo dono e tudo tem um novo princípio. Ele vaga solitário pelo planeta afora com sua mente e seu coração, que agora dividem o infinito.
Um infinito dentro de casa – que é a única coisa que ele tem, já teve e jamais terá.

Rogério Camargo e André Anlub
(16/6/15)

Postagens mais visitadas deste blog

A chuva bem-vinda

Tempo de recomeço

Um Eu qualquer