Textos pensamentos



Textos dedicados ao caríssimo amigo: Jacques Azicoff. 

Manhã de 14/4/15 – bardo que brada na quebrada.
Vim novamente da escola da história; aquela sofrida – ou nem tanto. Passo e vejo a rasteira do capoeirista que entorta a pista ou somente meus olhos. Leio enquetes no céu sobre cores do tempo, sobre sofrimentos e felicidades, casos eternos perdidos em uma bolha chamada: “talvez”... E algo mais, ou algo assim – ou nem tanto. Sinto o cheiro de grama encharcada, de cavalo, daquele mato irrigado, daquela bosta de gado – estrume fresco. Pois bem, estou em casa, enfim. Vou fazer café fresco, pão de centeio, queijo coalho e Muddy Waters no som bem alto. Acendi a lareira, o incenso, a ideia e vi o moleque Manoelzinho descendo a ladeira nesse frio congelante e inventivo... Menino sem casaco, sem uma calça quente, sem gorro, sem dente, sem família; voa por cima do muro uma coberta de linho (tenho uma nova que ganhei da minha avó), ele pega e se transforma em um casulo gigante – algo pré-histórico. Deu-me um nó na garganta e não consegui cantar! Resolvi fazer uma oração, calado (antigamente era mais fácil ser enfático, fantástico, fanático, fantasioso e sonhador). Nesse instante um dos santos da estante me olha com um olhar de quem quer dar um passeio; me fala mudo com olhos fixos, e, por fim, me cala em receio. O pego e levo ao outro cômodo e o acomodo em cima do parapeito da janela. Nesse momento o tempo abre, o sol brota tímido e as nuvens quase se transluzem – dando para ver a felicidade ao longe. 

 Noite de 18/4/15 – apoteose poética/divisor de águas.
Na sombra dos medos nasceu o pé de luz (meu pé de cabra arrombador de Eus). E o pé cresceu – se ergueu, ficou forte – criou porte, deu frutos, assim... Amadureceu a chave do mundo – a chave de tudo e futuro eternizado: chavão. Janelas se abrem; se abrem cortinas e vem o beijo do sol e vem penetrando o clarão. Mistérios nas nuvens, e obtusos e abstrusos e absortos. Abriram-se dentro de um aberto brilho no imaginativo castelo os portões. As notícias melhoraram com o céu lavado, o infinito ficou mais perto; ouço aquela menina me chamar para um drink no escuro, ou no inferno, “a la Tarantino”. Visões de queijos, vinhos – paladares de bocas e intestinos, tudo faz sentido de alguma forma. Há um gigante ou há um anão entre o rei e o umbigo, decididamente isso é de fato uma norma. Já ouvi a menina exibindo cantando que nada a deprimia... E depois sumia. Talvez fosse para outra galáxia ou talvez tocasse violino para inspirar um milhão de alguém. Lá vem um inverno rigoroso... Vou colocar um casaco, deitar, ler e tirar um cochilo. Na luz da coragem o pé de luz cresce (além de contador de história, da necessidade de mentir, objetivos, escritos e glórias). Até coloquem palavras em minha boca... Mas que nasçam poesias. Não, não é meramente escrever poesias... É desenhar sentimentos.
Manhã de 20/4/15 – pé na estrada, estado e estribo.
Já de praxe: meu maracujá gelado e a impressão de algo largo longo lerdo no ar. Ser leigo nas conclusões não é estranho? Não, nem tanto! Cobiço sempre pingos nos “is” e até levo desaforo para casa, mas sabendo e admitindo que esteja levando. Sou totalmente parcial e gosto de ter conceitos sobre tudo; mas sabendo que os mesmos podem mudar, admitindo e procurando acertar, caso esteja errado. “Isso ou aquilo” - coisas corriqueiras; mas nada é corriqueiro quando se vive o momento. Há algo no ar: talvez seja somente ar mesmo; talvez seja poluição; talvez seja cheiro doce que ficou na memória; talvez cheiro de comunhão, velas acesas... Esses “trens” com jeito Mineiro (saudade de MG). Vou comer um queijo com doce de leite e goiabada, beber uma cachaça e volto. Há algo no ar: não é comum. É algo turvo, fora de foco, que necessita arremate. Sem martírio! Fiz jura de arrumá-lo, deixa-lo tinindo, seja lá o que for. Em dado momento a brisa invade a sala e sinto o odor de flor de lírio (voltei com duas talagadas de cachaça na cachola). Joguei a moeda ao alto, escolhi “cara”; e foi assim: bateu no chão e caiu no vão da pedra. Peguei a lanterna e fui ver o que havia dado. A luz foi nela e nada! Agora é algo que me tira a atenção e vai à contramão do desejo; pão sem queijo/sexo sem beijo/desconstrução da ação. Peguei o imã, a corda e acabei com o imbróglio; resgatei a moeda, mas no ínterim do resgate/viagem/volta, ela rodopiou na linha e jamais saberei o que deu. Então não perdi nem ganhei... Empatou. Não sei o porquê/por onde/por quem, só sei que danço a dança mais zen. Danço no embalo do samba da vida; na alma o brilhar, bailar de amores cheios de cores, festas e todos. Dança frenética de ritmo e tambores, de velho menino, gigante e rei; de ruas/rios de deuses plebeus; danço na raça, na praça ditosa, no coreto da vitória e no viés do além.
Tarde de 20/4/15 – ação, doação, dor e adoração.
Vem à dor de cabeça, mesmo que imaginária. Vêm os placebos da leitura, escrita e ficar solitário. A versão da história há tempos foi deturpada, pois nunca se faz nada que não traga um avesso apraz. Nada é capaz de entreter intermitentemente os eu próprio capataz; loucura, e é mesmo. (hoje pensei em ir doar sangue). O avesso agora se fez travesso e belo, repartindo o bolo em ¼ de desequilíbrio. Complexo colorido de ajustes perfeitos aos olhos perplexos e mentes entreabertas; mentes de calibres sutis, situações de insinuações sinuosas e citações hostis (tirei a noite para ler Foucault, mas faltou fetiche e o fantoche para findar tal festa). Vem à dor na perna, mesmo que real. Após a corrida vespertina em um suor mais forte, em um sol mais forte, um pique mais forte de um corpo mais fraco. É abril, mas poderia ser sonho; é um mês escancaradamente gordo (novamente a sensação que tenho mais do que preciso/mereço). Os bordões estavam prontos e os bordéis idem: tais “ai” e “hum” e “ha” num vai e vem intenso de dar inveja ao pêndulo do relógio antigo da sala. É mês que escancara; vou dar a cara à tapa e pronto para quaisquer jornadas. (tirei a noite para ler Ana C., vai faltar você. Já cedo faltou enredo, há medo sem meio no querer). 

Noite de 20/4/15 – poética e orgulho das conquistas
Iniciava-se: há ditadores querendo salgar a carne do churrasco. Isso é inadmissível! Fiz aniversário no começo do ano; não tinha bolo, mas tinha bala! E da boa, e bem doce. Não sou mais um consumidor assíduo de doces, só os mais “light”. A criação atualmente é meu carboidrato, minha glicose, minha paçoquinha, meu doce de leite com suco de amora (vou comer torrada com ricota de leite de búfala e, de sobremesa, trufa de chocolate). Agora vi na televisão: mulher deu a luz a cinco crianças; agora olhei para o céu e cinco estrelas se destacaram. Medianamente o meridiano escolhe uma ponta; espontaneamente o espontâneo fica indeciso. É muito siso para um inciso nessa pouca boca; é muito oca para se construir uma oca e ocupar todo espaço preciso (vou tocar Blues pesado na minha gaita de boca e pegar pesado no semblante de louco). Farei aniversário no começo do ano que vem. Talvez tenha bolo, talvez tenha bala! E, de boa: nada de doce.  

Manhã de 24/4/15 – gelo, Absolut e água com gás.
“Êta, porreta, qual é?” Deixo para trás o rompante e no montante e na montanha vejo essa manhã sedenta, tamanha, de inspiração. Manhã avermelhando ao longe... Cereal, frutas, café – sustentação –, o branco da parede e quadros coloridos, aqui. Vou dar minha corrida e ganhar pensamentos; ganhar sonhos e novidades; vou dar minha pitada de irrealidade e abarcar fingindo ser um monge (não escondo a simpatia pelo Budismo; e nem deveria, e nunca assim farei). À revelia estão em quilo/peso à crença contraditória, algumas oratórias sem noção; há momentos em que não me queixo, e o quebra-cabeça se deixa e se encaixa... Na maioria dos momentos não. Prefiro sempre a adequação de ter uma/duas/três escolhas (fiz escola nisso) e fazer o que acho sensato, justo e honesto: sem ordem – desordem – prevaricação, não escondo a simpatia pela pessoa simples, direta, sincera e nada gananciosa. “Êta, disposição”, é bom acordar para vida depois de acordar da cama e depois de anos estagnado; não vou mais reacender tal (nenhum) carma (não foi para fazer trocadilho). Já vivi na lama; já vivi no limo; já vivi no limbo; já vivi sem gama e “me virei” na vida sem colorido – sem poesia – sem improviso, com garrafas e ideias vazias (ou a caminho)... Sem fim, sem confetes e sem ninho. Na obsessão pela saída achei a poesia. Hoje a amo sem a necessidade da recíproca e/ou carinho.

Madrugada de 25/4/15 – Bovarismo e quão de Marx.
Não se diz ganancioso, apenas não se contenta com pouco; só não percebeu ainda que também não se contenta com muito. Uma corda: já baixou a noite, deitado e cansado vejo pela janela as estrelas sorrindo no céu; faz um frio atípico que pode futuramente principiar um temporal (tem sido a poesia que me invade e, em alarde e envaidecido, sigo saciado na sua maestria). Já fiz minha leitura noturna, escovei os dentes e bochechei o enxaguante bucal. Vou até a cozinha e abro o freezer deixando sair aquele bafo de fumaça gélido e gostoso, pego um copo comprido e coloco gelo até a borda e na porta a garrafa de vodca (resfriada/intensa – branca/alva – coloidal/viscosa – irresistível/fatal). As asas querem voo, me incomodam, querem que eu volte à leitura ou pegue a caneta. Mas com o copo na mão e o líquido na cabeça: estou de muleta. Um acordo: fiz um acordo certa vez, um pacto com um dos meus medos e com o mais forte deles. Nosso encontro foi em sonho: eu solitário no mar com ondas gigantes – é impossível estar sozinho quando se tem ondas gigantes, mas eu estava –, nada de terra em volta, nada de ilha nem sequer um barco. O medo voava enquanto soltava uma forte chuva sobre mim e soprava um vento muito frio e extremamente forte, no estilo terral, que fazia nas ondulações pequenas chuvas ao contrário. Era um cenário “Hitccokiano”, só um pouco pior, que parecia durar uma eternidade; eu gritava a ele para deixar-me livre, para expor a verdade, para não me enrolar mais... Ele concordou e eu então acordei (pássaros que vem e que passam também são os pássaros que ficam). Quando o tempo passa em branco é como estar alegre na jaula o Corvo; se acomodando no contrassenso de ser castrado da liberdade do voo. Um acorde: pego minha faca importada, minha faca de guerra, sento na varanda ao relento e começo a amolar – é um bom passatempo. A madrugada grita em silêncio, os cães das casas vizinhas e os daqui fecharam suas bocas sorridentes e babonas. Agora falta pouco, falta o parco: um mar, uma vara de pescar, uma lua cheia, inspiração e um barco. 

Madrugada de 27/4/15 – a enorme saudade do amanhã.
Sempre me flagro longe, pensando na minha velhice, na minha careca reluzente e no meu coração ainda batendo e amando, pescando em águas calmas e fartas de peixes e poesias; é recorrente. Penso no meu futuro barco simples, azul turquesa, nas águas de uma cidade do nordeste. Um barco com aquela tradição de um nome feminino escrito em letras simples e sóbrias nas laterais da embarcação... Há um tempo eu colocaria alguma pintora que gosto, que simbolizou algo em mim: Tarsila ou Djanira ou Haydéa ou Malfati ou Mittarakis...  Mas hoje em dia mudei, e o mais provável é que seja o nome de uma das escritoras que também me marcaram, nas leituras e/ou nas respectivas histórias: Emily Dickinson ou Sylvia Plath ou Ana C. ou Carolina de Jesus ou Virginia Woolf ou Beauvoir... Ainda mergulho de cabeça em uma paixão; mas checo a profundidade e a temperatura da água, coloco touca, tapa ouvidos e vou. Na varanda, na minha cadeira, cães deitados ao meu lado e o ar gélido, céu limpo e insetos me observam. Dou uma talagada no suco gelado de maracujá. Vou-me ao repouso, repousar o corpo, a mente, o bloquinho e a catarse que adoro, pois me persegue nos momentos mais curiosos, gráceis, carrancudos e inesperados. 

Madrugada de 1/5/15 onda só – assaz bela, mas só.
De quando em vez é melhor parar de pensar chatices. Na árvore da vida nunca se sabe qual galho segura o fruto, qual está podre e qual segura o fruto e se quebrará em podre. De qualquer maneira se deve adubar sem o adubo dúbio do mais fácil, trivial e raso. O abajur aceso ilumina meu conhecido bloquinho. E as sombras feitas na parede dos objetos que se mexem pelo vento do ventilador desafiam a imaginação. Taparam meus olhos para uma futura surpresa; desataram minhas mãos para os fatos do mundo. Ouvidos voam atrás de boa música e o corpo clama pela sobremesa. Agora não há tempo; não desisto nem do que desisti. Vivo remoendo vis charadas. Há tanta história dentro do prólogo que poderia até parar aqui. Mas vou além, o voo e lotes me aguardam nos vales querendo sociedade. A língua está solta como nunca, a mente tinindo de alegria, e a sensação de nunca ir dormir sozinho. Há mares e meu barco adentrando, meu doce mergulho e minha pescaria; não quero salgar demais o peixe – deixa-lo muito tempo à espera – só o necessário à língua. Meu amor/(a)mar, estou indo. O que será que acontece quando a aranha tece a melhor casa, a zona de conforto? O sono vem arriando, gancho mental de direita; agora é fugir do lógico e ir ao básico do orbe. Desligar o tri e bifásico. No mundo incógnito do ontem do amanhã do agora – ninguém é rico ou ferrado, pois não importa aos olhos de Deus que governa. Como não deveria importar nesse mundo aqui fora. Na pré-adolescência, durante e pós, fiz inúmeras amizades, percorria o RJ de camelo para cima/baixo, ia a diversas turmas de rua – Hilário, Constante, Leme, Figueiredo, GEL, Ipanema, Arpex, Catete, Glória, Botafogo para trocar ideias, fazendo assim amizade com várias mentes pensantes de histórias e ideologias diferentes. Sou humilde no trato com os amigos e complexo comigo.

André Anlub

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