Dueto da tarde (CVII)



Dueto da tarde (CVII)

É a vez das vozes da mãe, do pai, do filho natureza, naturalmente e nada mais.
Alguma coisa diz que é a vez da voz e a voz não vara a vez com avisos avulsos: manda ver,
Só para entreter, ser amistosa e ver fluir, evoluir, desenfrear a mente anacrônica e choramingosa.
Se consegue ou não consegue, o mote que a persegue faz notar a quem se negue o quanto é inútil se negar.
Sonegar a negativa é admitir o erro, mesmo que só por dentro. Eis que assim surge o enterro de toda a possibilidade de acerto.
Féretro concorrido: a família, os amigos, os conhecidos, os fãs, os desafetos, os sem-teto, os arquitetos de um mundo melhor comparecem.
Sambam o samba do crioulo doido em cima do caixão do morto. É torto? Até pode ser; é mentira? Até é; mas a diversão é garantida.
Nada é mais risonho que o sonho da seriedade: todos direitinho em seus papéis. Vão-se os anéis, vão-se os dedos, a mão recusa-se a ir.
E as vozes cantam os cantos das selvas para tentar tirar das trevas quem das trevas acha que se agrega.
Presente grego? Talvez um apego maior ao sossego, que torna-se inação, inanição, decomposição. Enquanto isso é disso que vive.
Enquanto isso no hospício a mente retrógrada se acomoda; cercada de antigamente ao som de quem já se foi, escreve o dia inteiro com caneta tinteiro no papiro que se decompõe.
Enquanto isso as vozes falam. Se puderem falar até o fim dos tempos, os tempos terão fim com as vozes falando.

Rogério Camargo e André Anlub
(28/3/15)

Postagens mais visitadas deste blog

A chuva bem-vinda

Tempo de recomeço

Um Eu qualquer