Dueto da tarde (LXXXII)



Dueto da tarde (LXXXII)

Não há problema: saiu à francesa fazendo corretamente o esquema, pegando a viola e pondo no saco.
Sair sem ser notado e não haver problema são sinônimos em algumas línguas.
E falando em línguas: distraído esqueceu-se de esquecer o gosto da língua dela que ainda permanece na sua boca.
Tinha sido bom. Queria que continuasse bom. Talvez até a próxima esquina, quem sabe. 
Mas o caminho até em casa é longo.
Tão logo se esqueça, mesmo que não mereça, outras línguas virão; antes mesmo da vitamina ao chegar em casa, depois de dobrar a próxima esquina, outras línguas virão.
Por enquanto, o prazer de meia hora tem aspecto de eternidade. Mas... O que era mesmo para trazer do mercado?
Seria o leite das crianças? Mas ele não lembra nem mesmo do preservativo! Só lembra de inventar um pretexto evasivo.
A distração no brinquedo ainda vai fazer a brincadeira acabar mal. Mas por enquanto é esse gosto, esse perfume, essa lembrança.
E vão-se as casas de luzes vermelhas, voam as abelhas empanturradas de mel; no seu mudo céu de estrelas salientes se sente um errante violeiro e infiel.
Assobia estridente, finge estar contente. Talvez esteja mesmo, feliz a esmo, de graça, porque tudo passa – menos este gosto, pelo menos até o lado oposto da calçada.

Rogério Camargo e André Anlub
(3/3/15)

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