Dueto da tarde (LXXXIII)



Dueto da tarde (LXXXIII)

Nenhuma represa detém as águas do sono. Elas vêm com a determinação dos sonhos, nos permeiam com um toque do “homem da areia”.
Tudo se desmancha, como o homem de areia, quando o sono toma conta. E o sono sempre toma conta.
Houve um tempo que seu sono era em branco, era um vulto de nada da hora de dormir até o acordar; tempos ruins para quem ama sonhar.
Ele até sorri lembrando disso. Um sorriso que vai adormecendo como a pedra em que recosta a cabeça.
Embarca numa barca no sono ao som do oceano de águas claras, aparentemente rasas e lotadas de peixes; e aqui, ele e sua vara de pescar sem isca e sem pressa.
A brisa passa por ele e imagina sonhos de brisa. Mas apenas porque é generosa. A pedra é mais dura: tem convicção nos sonhos de pedra.
São contrassensos: dorme-se como uma pedra para acordar feito brisa, sonha-se com nada para sonhar mais quando estiver acordado e pesca-se sem isca para alimentar a consciência.
No mundo que há por trás do muro, as possibilidades são todas. De todas, os olhos fechados veem nenhuma, do lado de cá do muro.
É o mote diplomático de encarar a barreira, emoldurar o muro, seguir os rastros da serpente, ultrapassando a fronteira entregue a seu inconsciente.

Rogério Camargo e André Anlub
(4/3/15)

Postagens mais visitadas deste blog

A chuva bem-vinda

Um Eu qualquer

Parte XI