Dueto da tarde (CXLI)



Dueto da tarde (CXLI)

Consonância fina de uma sintonia perfeita como uma luva feita para caber em qualquer mão. 
O côncavo e o convexo têm inveja, lua e estrela não casam tão bem. Usar a mesma frequência e não se atropelar. 
É estar e não estar, o imperceptível extremamente visível, mas só visto aos olhares internos. 
Sombras que se tocam no escuro. Não há falta de luz em sombras que se tocam no escuro. Há sombras tocando-se no escuro, apenas. 
Os sons são absurdos, zumbidos, vozes, cantos, murmúrios dos mais extensos timbres.
As entrelinhas entrelaçam-se e entre suas linhas – entre seus laços – o suspiro do que não está ali marca presença.
E à ausência de um testemunho há muita indiferença. Foram, querem e são o que foram, são e querem.
Uma lembrança de que sempre foi assim não conversa com uma lembrança de que nem sempre foi assim.
A sintonia entrou na perfeição e saiu do lugar comum, pois mergulhada na aceitação nada mais é opressor e ninguém mais está oprimido.
Mesma direção, mesmo sentido. Não há necessidade de placas nem de mapas nem de GPS.
Agora as sombras se tocam no claro, mesmo que olhos não vejam ouvidos não ouçam bocas não falem; agora o côncavo se faz convexo – e vice-versa – no reflexo do outro ponto de vista.
Sim, tonia – sem atonia, sem afonia, sem agonia, sem nada além de uma vida inteira e tudo que é de uma vida inteira.
Desliga-se a luz e o som, desliga-se a sintonia fina e a consonância perfeita ligando o status em “procura” para um novo passo à frente no caminho. 
É do tropeço que se ergue e mantém.

Rogério Camargo e André Anlub
(2/5/15)

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