Dueto da tarde (CLXIX)



Dueto da tarde (CLXIX)

A boca cheia de dentes, na mão os presentes e os passos alegres.
Uma expectativa satisfeita é uma nova expectativa esperando satisfação.
A conclusão pode ser sim – pode ser não. Mas já agrada.
Tudo que sirva para distrair o tédio é benvindo. Assim pensa o tédio.
De tudo um pouco – ou um nada – ou um muito. Mas já está de bom tamanho.
O bom tamanho que está ocupa todo o seu espaço – para o bem ou para o mal.
O tédio hoje faz efeito de dor na alma que ainda é muito viva e ativa. A rotina de ser neutro e de ser sempre faz efeito no seu ser que já morreu em surdina.
A boca cheia de dentes, na mão os presentes e os passados e os futuros presentes dados e recebidos.
Tudo faz surgir à expectativa do novo que nunca foi nada mais – nada menos que o velho que fez plástica e colocou peruca.
Pneu recauchutado, papel amassado desamassado, coisa desfeita feita novamente. Sem uma nova mente.
Deu-se a primavera, deu-se de novo um novo/velho reinado. A esfera girando e a cabeça e o corpo girando... Só assim tudo fica parado.
Se tudo fica parado, a boca cheia de dentes não morde. Se a boca cheia de dentes não morde, pode sorrir.
Sorriso tímido que se esvazia em versos... Agora na mão somente dedos inquietos e os anéis... Agora os pés descalços nos encalços de espaços incompletos.
Nada é para já, mesmo com o aqui e o agora. Os dedos estalarem é apenas os dedos estalarem – mesmo que a ordem ecoe por séculos.
A conclusão não se conclui e o tudo, por hoje, ainda não deu as caras. Mesmo assim agrada.
Mesmo assim é a festa, recolher cumprimentos, dar passos alegres, receber abraços e dizer que está tudo bem. Porque está tudo bem.

Rogério Camargo e André Anlub
(3/6/15)

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