Dueto da tarde (CLXVIII)



Dueto da tarde (CLXVIII)

Era hora de não olhar mais para o relógio, era o tempo já de não ter contratempos com o tempo.
De hora em hora a alma brinca com o absurdo e o corpo pega carona e samba na cara da cólera.
Marcadinho e controladinho o esforço de não marcar nem controlar. Chumbo com fixação em pluma.
De costas dá um passo à frente e logo outro passo para trás de frente. Pula plantando bananeira, come as bananas com casca sem achar sementes.
Somente se a mente parar, só aí. Mas a mente não para. Então, era hora de não olhar mais para o relógio com o relógio dentro dos olhos.
Para iniciar a aquietação revoltante, esperou uma revolta... Era aguardar a mordida do inseto para beijar de volta.
Fica esperando uma voz que não fala, um sinal que não sinaliza, uma certeza que não acerta.
Abre todas as janelas para poder fechar os olhos; aproveita sua eterna afonia para gritar por si próprio.
E no silêncio denso de cortar com a faca do pão que não come, escuta a paralisia, movimenta-se com a inércia, prende os pés e voa.
Desde sempre se enrola com o tempo; quer contê-lo e perde tempo com isso. Desde nunca se acerta com o certo; se acerta com isso e acha errado tal ato.
Tal qual, qual tal: tudo igual diferente, tudo igual (in)diferente, tudo dentro do lá fora. É agora ou nunca mais: joga-se de cabeça no relógio de pêndulo da sala. Arruma um grande galo que de hora em hora vai cantar durante um bom tempo.

Rogério Camargo e André Anlub
(2/6/15)

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