Dueto da tarde (CLXX)



Dueto da tarde (CLXX)

A pálida luz de um sol tímido e a ânsia de mais, muito mais, que a pele contém.
Melancias se espalhando pela horta do jardim, meio-dia que bate à porta chamando quem queira vir.
A festa é pouca, mas dá para todos. Todos os que se contentem com um sol tímido.
Sorriso curto, música baixa, água de coco, canapés de sardinha; uma vidinha pacata que só presenteia a poucos.
A turbulência quer mais, muito mais. A turbulência tem que se contentar com o que recebe.
Mas ela não tem paciência! Quer usar turbante, burca, hábito, rakusu, kimono, andar nua na rua e tudo ao mesmo tempo abraçando a ciência.
Quem tudo quer nada tem, além da ânsia de tudo querer. Mas isso fica pra depois. Agora é a boca aberta.
Mas abre-se um porém: a luz pálida torna-se cálida, ganha muito mais brilho e segue um novo trilho em um novo trem.
É o que ela tem. Então a turbulência arma-se da paciência que não tem para ter com a impaciência alguma ciência.
Renova-se o dia e a partir de agora não há mais porta. Rega-se a horta, o sorriso torna-se largo; o lago segue na aorta como sangue da vida quente e farto.
Quando o sol vier pleno, multiplicará tudo isso. Mas por enquanto nada disso diminui.
A lua já faz seu aquecimento para entrar em cena; plena, extrovertida e serena, a lua fica toda quieta ouvindo a música lenta da festa.
Festa simples. Festa de uma promessa, apenas: amanhã é outro dia.
As melancias são cortadas e divididas. A festa que era pouca se amplia. A turbulência perde a inocência de querer ser tudo, e a vida segue em seu tubo até o próximo festejo.

Rogério Camargo e André Anlub
(4/6/15)

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