Dueto da tarde (CLXXXVI)



Dueto da tarde (CLXXXVI)

A rosa vermelha esperando o que as rosas vermelhas esperam sob o sol poente.
Pendente, pedante, laranja madura no horizonte; vai-se ao longe por detrás do monte.
O calor da expectativa de um último beijo do sol que se despede.
A rosa prosa posa de boa moça, solta um breve e denso perfume intenso que de nada serve
Mas que serve ao encantamento como o encantamento serve... ou não serve. E este é todo o serviço de entender.
O sol se despede e deixa o enfoque de tom bem leve, em pintura de Van Gogh, todo o inverso de um arrebol.
O céu chama uns vermelhos para completar-se. Disso a rosa vermelha entende bem.
As estrelas fazem fila para se mostrar. Disso a noite negra entende bem.
Se há desentendimento, perde-se – por um momento – nos entretons da sutileza que se dilui.
A rosa fecha os olhos e interrompe seu flerte, mas o sol não dorme e brilha uniforme do outro lado do globo.
A rosa não tem certeza disso, mas confia em que amanhã sua paixão retorna. Que mesmo agora sua paixão está, mesmo não estando.
A rosa vermelha sorri para a rosa negra que se entusiasma com a lua; esta, por sua vez, passa adiante o sorriso a uma rosa branca que já se casou com a paz.
Para todas o sol é único. Para todas existe apenas um sol, que a rosa vermelha descreve em vermelhos para si mesma.
Aos olhos do amor todas as rosas são rosa, tenham a cor que tiverem. O amor do sol é pela afeição da rosa. O amor dela é pela aceitação do sol.

Rogério Camargo e André Anlub
(24/6/15)

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