Dueto da tarde (CLXXXVII)



O Brasil é um Estado Laico com uma posição neutra no campo religioso. A laicidade tem como princípio a imparcialidade em assuntos religiosos para respeitar todas as crenças e garantir a liberdade de culto e reunião.

Os fundamentalistas querem colocar as leis e dogmas de suas religiões acima do bem-estar público e da Constituição. 




Dueto da tarde (CLXXXVII)

Foi de modo ruim, mas voltou assim: bem bom. Na epiderme arrepiada fez casa.
Viveu de achar que estava tudo bem. Mesmo sem saber o que era tudo bem.
A névoa vem de seus pés, percorre seu dorso, sobe à cabeça e faz com que sua astúcia esvaneça.
Marca o tempo pelas desistências do cuco. Comemora derrotas e faz luto por vitórias.
No seu nada sucinto cinto, junto ao martelo, aos pregos, ao cilício, ao endereço do hospício e a pá de cal, há o desconforto.
Há conforto no desconforto. Pois está tudo bem. É o que lhe dizem e acredita, credita em sua conta corrente o consolo e o dolo.
Como um tolo fica de olho no relógio da parede e os ponteiros em desesperos. Anda pela casa pisando em tapetes envelhecidos que contam segredos.  Vê que no seu espelho não há mais nada.
Usa o espelho como bandeja e serve-se nela brioches endurecidos pelo descaso, rocamboles que o bolor rejeitou.
Foi de modo ruim e regressou um pouco pior. Mas não para ele.
Porque o mundo é o que ele acha que é. E ele não acha que o mundo é o fundo de poço onde caiu.
Está escuro? sim. Está complexo? sim; – mesmo estando exposto à sua frente, mesmo estando escrito no céu e na terra... Ele não vê!
Tanto não vê que é feliz. Tanto é feliz que não vê. Uma pedra ao sol. Uma pedra dentro da pedra ao sol.
Sua alma ainda brilha, mas não se liberta então não se vê. Há uma capa preta abrasiva contornando cruelmente seu ser.
A crueldade é da capa. Porque ele está bem. Ele sempre estará bem enquanto tudo bem for tudo bem e houver sapatos onde enfiar os pés.
Não há intimidação se não houver intimidade com seu algoz; não há contrassenso se o mau senso acha ser bom, ou nada acha.
Para enxergar é preciso ver. Para ver é preciso enxergar. Então está tudo bem sempre, sempre que tenha sido de modo ruim, péssimo, horroroso e bem bom.

Rogério Camargo e André Anlub
(25/6/15)

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