Dueto da tarde (CXXXII)


 Dueto da tarde (CXXXII)

Já não era sem tempo: o tempo estava comendo seus calcanhares e nem as lembranças resistiam mais.
Os olhos embranquecidos e as rugas por todo o corpo lembram um ser já morto que persiste em estar vivo.
Puxar uma cadeira de balanço para a frente da janela. Puxar uma janela para a frente da cadeira de balanço, acender um charuto cubano, ouvir uma salsa ou um tango... Pensando bem: nenhum dos dois.
Melhor ficar ouvindo o vento nas árvores, algum pássaro e o som da saudade.
Melhor fica tentando lembrar de algum momento e esquecer do esquecimento que o invade.
Uma sensação de urgência, no entanto, faz trepidarem as paredes. As velhas fotografias penduradas quase caem; e nas telhas escurecidas, umedecidas e com limo passa um felino faminto olhando de lado para tudo, olhando de vulto para o nada.
Como se fosse a noite, como se tivesse a noite à sua disposição. Caça e não se preocupa em ser caçado.
Já não era sem tempo: o tempo agora lhe prega uma peça, fazendo retornar algumas memórias, fazendo boas imagens florirem no ar, no céu e nas folhagens.
Hora de levantar e encontrar chão sob os pés. De colocar os pés sobre (algum) chão. Levanta. E leva a cadeira de balanço junto.
Com o tempo como inimigo, cada minuto que passa é como um pequeno corte de navalha. Quer catalogar as memórias: emoldurar as imagens, sintetizar os sentimentos e gravar as vozes.
É assim que vai entrar para a História – para a sua história: desce até o velho e esquecido porão e abre algumas caixas; tira as teias de aranha da velha máquina de escrever, dos formões e martelos, das telas e dos materiais de pintura. 
Suspirando um grande, um imenso “talvez”, abre o primeiro sorriso dos últimos... (Séculos? Milênios?) minutos.

Rogério Camargo e André Anlub
(23/4/15)

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