Dueto da tarde (LXXXVIII)



Dueto da tarde (LXXXVIII)

Janela aberta para uma parede. Mas é uma parede amiga: nela consigo escrever minha saudade e projetar minha esperança.
Em folhas cândidas de solo limpo vou plantando ao lado dos eucaliptos sementes de poemas agora vigentes de outrora extintos.
Nas rachaduras do reboco acompanho rios de navegação imprecisa e não precisa muito nem pouco para que me sinta bem pago e não exija troco.
São regurgito e beijo que deixo em desleixo para que olhos alheios percam o eixo em prol de entendê-los.
Nas marcas do limo me aprumo, me arrimo, me arrumo, me animo a ficar olhando apenas, sem pena nem mágoa.
Na água vejo outro Eu, um Eu a mais, mais são, com mais ação, mais dotado e apartado, tal qual a clemência que conferi a mim tempo atrás.
Na hera, quimera insistente, a resistente memória, inglória e gloriosa, dengosa pousa a vista e revista os bolsos de meu lirismo.
Nossa, sou assim mesmo: o sucesso abraçado ao fracasso dentro do obstinado que brotou roxo e cresceu torto de um frouxo.
Parede aberta diante da janela, que se ela está fechada é de brincadeira, é de passageira birra. Incenso e mirra levo a meu nascimento e, lamento, guardo o ouro pra depois.
Nesse todo aconchego só posso dizer que conheço o que sou, e deixar o resto em frestas finas, gotas mínimas às presunções a esmo.
Não preciso do outro lado da parede. Nem o outro lado da parede precisa de mim. Só preciso da janela aberta, da minha vista aberta, da minha vida aberta.
Na certa nem visitas espero, pois me propus visitar; apenas esmero o fluxo rítmico, belo, salutar e austero de ao universo e ao inferno me doar.

Rogério Camargo e André Anlub
(9/3/15)

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