Dueto da tarde (XCII)



Dueto da tarde (XCII) 

Paisagem de passagem. Todos estão, ninguém está. Perene eternidade efêmera...
É fêmea, é a mãe natureza que sempre marca presença em mim... mas quero mais.
O mais que eu quero me diminui, talvez. Porque já está tudo ali. E tudo aqui já está.
Serei ganancioso? – não! – sou apenas um ser ansioso em busca de escopos para continuar feliz e respirando.
Felicidade também é perene eternidade efêmera. Está e já não está. Pousa nas mãos e ainda está solta no ar com as andorinhas. Mas respiro.
Veio um ar mais frio em navalha; veio uma chuva em ventania, dando alento e alimento aos rios e mares e colocando mais melancolia no meu bucólico dia.
Tristeza de cortar com a faca? Não sei. Até isso é talvez. E faz parte da paisagem de passagem. Logo estarei rindo. Depois rindo de ter estado rindo.
As plantas já me olham sorrindo; as nuvens já pintam alegria em degrade de preto, branco e cinza; o João de Barro limpa os pés no tapete de entrada da sua casa e entra, não antes de me olhar com olhar afortunado.
Paisagem de passagem. Do branco para o preto. Do preto para o branco. Do não sei para o continuo não sabendo.
Tudo bucolicamente enamorado, mas eu sem a amada. No jardim, nos rios e na janela sorrio o amor do passado.
Amar o amor até que amo. Mas perco meu tempo querendo saber se o amor me ama. 
É a passagem da paisagem e é minha vida em evidências – nos ventos, nas chuvas, nos pássaros, no efêmero... todas as coisas que invento/desinvento para continuar amando/amado.

Rogério Camargo e André Anlub
(13/3/15)

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